Cães caem em bueiro após briga e são resgatados por bombeiros em Manaus
Após queda em bueiro de mais de dois metros na Rua Topázio, animais foram retirados ilesos por equipe do CBMAM no Tancredo Neves.
Matheus Nascimento, 27 anos, parou o carro numa curva da Rua Topázio, no bairro Tancredo Neves, zona Leste de Manaus. Era noite de segunda-feira, o ar múdo da Amazônia ainda pairava baixo, grudado na calçada. Ele deixou o veículo e foi até a boca do bueiro. Lá embaixo, a dois metros de profundidade na treva do concreto, ouvia-se um ganido rouco, abafado pelas paredes da galeria. Não era gente que pedia socorro, mas a angústia tem a mesma voz em qualquer espécie.
Ele tinha acabado de presenciar o desenrolar da tragédia pequena. Dois cachorros, sem dono aparente naquele momento, cruzaram-se na via. O instinto foi mais rápido que o juízo. "Eles começaram a brigar no meio da rua, foram se aproximando do bueiro e, ao se morderem, um caiu e puxou o outro", Matheus narraria depois, ainda com o choque da imagem na retina. A gravidade não perdoa. O que seria uma disputa de território virou uma queda vertiginosa para a escuridão.
A espera pelo Corpo de Bombeiros parece durar mais do que o relógio registra. O autônomo ficou ali, vigiando a boca de cimento, imaginando se os animais conseguiriam escalar ou se a água da chuva recente subiria. É um sentimento de impotência que nos chega de repente: ver o irmão — mesmo o de quatro patas — em apuros e não ter o braço longo o suficiente para puxá-lo. A cidade corre por fora, carros passam, gente vai para casa, mas ali no buraco o tempo parou.
Quando a guarnição do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas chegou, a luz dos faróis iluminou a cena com uma crueza clínica. O sargento Tiago Silva, chefe da equipe, não fez discursos. Mediu a profundidade, calculou o ângulo, ordenou o preparo do equipamento. O ofício de salvar requer precisão, não apenas boa vontade. Eles trouxeram o cambão, aquela gaiola metálica usada para contenção e transporte. É um objeto rude, mas naquela hora era a única mão que podia descer até o fundo.
Tiago olhou para dentro. A visão é ruim no fundo do bueiro. Só se sente o cheiro de terra úmida e bicho. Aos poucos, a gaiola desceu. O silêncio de quem está em cima, torcendo, contrastava com o metal roçando na borda do tubo. Num momento, um animal entrou. Depois o outro. O cambão subiu, pesado, trazendo vidas de volta para o nível da rua.
No chão, o suspense do estado de saúde. Uma queda de dois metros pode quebrar ossos, cortar vísceras. Os bombeiros fizeram a checagem, tatearam, procuraram ferimentos. Mas não havia nada. Nem arranhões. "Ambos estavam em bom estado de saúde", informou o sargento com a sobriedade de quem está acostumado a ver o acaso pouvar ou levar. O susto tinha sido o preço total.
A soltura foi rápida. Nada de abraços, nada de fotos para o álbum de família. Os dois cachorros, assim que sentiram o chão firme, dispersaram. Um correu para um lado, outro para a direita, sumindo entre as sombras das casas da Rua Topázio. A vida de rua não permite muita gratidão estéril; o instinto é continuar andando, antes que o perigo volte.
Matheus viu os últimos rabinos sumirem. Guardou o carro, acendeu o motor, e seguiu viagem. O sargento recolheu o cambão. A rua voltou ao seu vazio habitual. Mas por alguns minutos, a noite na zona Leste de Manaus tinha sido um altar onde se celebrou apenas uma coisa: a sorte de estar vivo e fora do buraco.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



