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Nortícia BoaHistória de superação

Ex-detento chega ao 8º período de Medicina em Araguaína

Wallace William da Costa, preso aos 18 anos, cursa medicina na UFNT e é aprovado em concurso público.

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Padre Bruno Sena
Tocantins · AM
27 de mai. de 2026
publicado
2 min
de leitura · 489 palavras
Estudante de medicina lê livro em mesa com cadernos e canetas espalhadas.
Wallace William da Costa, preso aos 18 anos, cursa medicina na UFNT e é aprovado em concurso público · Foto: Redação Nortícia

Wallace William da Costa, 44 anos, passa o dedo pela lombada do livro de anatomia. É um gesto miúdo, quase uma prece, que ele repete todas as noites em Araguaína, no Tocantins. A mesa da cozinha está cheia de anotações, cores de caneta marcando o caminho do corpo humano, e o cheiro de café fica no ar, forte e quente.

Ele é estudante do oitavo período de medicina na Universidade Federal do Norte do Tocantins e, agora, também médico concursado. Mas para chegar até essa mesa, revestida de um guarda-pó limpo, Wallace precisou atravessar o deserto. Foi preso em 1997, com apenas 18 anos, e condenado a seis anos por tráfico de drogas. O mundo dele era pequeno, circunscrito pelas grades da Penitenciária José Edson Cavalieri, em Minas Gerais.

Há uma história que ele conta, e que vale por um testamento. Numa noite de insônia no cárcere, Wallace olhou para o céu. Não estava sozinho, mas sentia o peso da solidão. "Olhei pelas grades e vi uma lua linda, e percebi naquele momento que aquilo não estava me fazendo bem", diz. Foi ali, naquele olhar silencioso, que a decisão nasceu. Não foi um trovão, nem uma voz estrondosa. Foi o simples reconhecimento de que havia vida lá fora, e que ele queria fazer parte dela de novo.

Na semana seguinte, os livros chegaram à cela. Ele começou a concluir o ensino médio. O estudo virou um porto seguro. Quando saiu, depois de quatro anos fechados e dois em regime aberto, Wallace não parou. Fez técnico de enfermagem, trabalhou, guardou o salário e manteve o olho na lua que ele viu da prisão. O sonho cresceu e atravessou a fronteira, veio para o Norte, para o cerrado tocantinense.

Na universidade, Wallace não é mais o número do preso. É o colega de turma, o voluntário no plantão, aquele que escuta com atenção porque sabe o valor da segunda chance. A superação dele não é uma história de herói de quadrinhos, sem esforço. É de madrugadas estudando, de olhares desconfiados que ele transformou em cumprimentos, de uma fé persistente na capacidade de se reinventar.

"Cumpri 4 anos fechado e 2 em condicional. Durante a condicional fiz o curso de enfermagem e comecei a trabalhar", conta Wallace. Ele fala sem ódio, sem rancor. O passado é um substrato onde ele finca os pés para crescer, não uma âncora que o puxa para baixo. Recentemente, a notícia de que foi aprovado em um concurso público para médico correu os corredores da faculdade, mas ele mantém a mesma calma.

O sol se põe em Araguaína. Wallace fecha o livro de anatomia, guarda as canetas. O dia terminou, e amanhã começa mais um ciclo de plantão e aula. Lá fora, a lua que ele viu pelas grades continua a mesma, agora iluminando a varanda onde ele descansa. O recomeço já não é uma promessa; é a realidade que ele construiu, um dia após o outro.

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◆ Repórter · Nortícia Boa

Padre Bruno Sena

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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