Gavião interrompe telejornal e pousa em câmera ao vivo em Ji-Paraná
Gavião-carijó, morador conhecido da torre da Rede Amazônia, escolheu tripé de repórter como poleiro durante o Bom Dia Rondônia.
Agnaldo Martioli, repórter veterano do Bom Dia Rondônia, ajeitava o tripé da câmera no pátio externo da Rede Amazônia, na Avenida Brasil, em Ji-Paraná. Eram 6h20 de uma segunda-feira comum, o sol começava a bater no asfalto e o roteiro previa apenas uma nota sobre o tempo seco. Mas a notícia de verdade estava pousando bem ao lado da lente. De repente, uma somba bloqueou a visão do céu. Não era uma folha, nem um drone. Era um gavião-carijó, com suas penas listradas e o olhar atento, decidindo que a equipamento de TV era o melhor mirante da cidade.
O animal, que a equipe da emissora já conhece de vista, desceu devagar e pousou firme na câmera. "Ele achou que o tripé era um poleiro e ficou ali, observando o redor", contou Agnaldo, rindo da surpresa ao vivo. No estúdio, a produção parou por segundos. Na tela do telespectador, o bicho dominou o quadro. Enquanto o repórter falava do clima, o gavião parecia dar a sua entrevista silenciosa, estufando o peito e olhando para as casas do bairro adjacente. A cena correu rápido pelos grupos de WhatsApp de Ji-Paraná, transformando um início de rotina em assunto da manhã.
A torre da Rede Amazônia, no polo da emissora em Rondônia, virou um ponto de referência para a fauna local. A estrutura alta, rodeada por árvores e ainda com bastante espaço aberto, funciona como um apartamento de cobertura para várias aves. Segundo o biólogo e médico veterinário Guilherme Marieto, especialista em aves, o visitante matutino é da espécie Rupornis magnirostris, popularmente chamado de gavião-carijó. "É uma espécie muito adaptável e comum em áreas urbanas", explicou Marieto. "Eles veem as construções humanas como extensões do ambiente natural e aproveitam a altura para caçar insetos e pequenos roedores.
Para a equipe que trabalha no local, a visita é quase diária. Operadores de câmera e editores já acostumaram a olhar para cima antes de sair para o almoço. O gavião usa a torre como base de patrulha. De lá, ele enxerga os quintais da vizinhança, o movimento da Avenida Brasil e os fios de luz. "É o nosso colega de trabalho. Ele chega, dá uma olhada e vai embora", brinca um cinegrafista da equipe, que prefere não se identificar, destacando que a presença do animal é um sinal de que, mesmo no concreto, o cerrado ainda respira.
O show durou apenas alguns minutos. Quando o bloco do jornal acabou, o gavião entendeu que a pausa para o café terminou. "Ele nos deixou, infelizmente. Teve que ir trabalhar, caçar alguma coisa para comer", despediu-se Agnaldo ao vivo, com o tom bem humorado que quem vive no Norte desenvolve ao conviver com a natureza. O bicho bateu asas, ganhou altitude e sumiu em direção ao bairro Guarujá, provavelmente atrás de um lagarto ou um gafanhoto para o café da manhã.
Quem mora em Ji-Paraná sabe que é preciso dividir espaço. A cidade cresce, mas o cerrado e a transição com a Amazônia insistem em aparecer. Se você encontrar um gavião-carijó na calçada ou na varanda, a dica é manter a distância. Não tente tocar ou oferecer comida. A presença deles ajuda a controlar pragas urbanas, como baratas e pequenos roedores. Caso a ave esteja ferida ou presa em algum local, o contato deve ser feito com o Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) pelo Ibama ou através do Corpo de Bombeiros, através do telefone 193.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



