Tradição de 2014: moradores pintam 450 metros de rua em Rio Branco para a Copa
Vizinhos do João Eduardo II usam 450 litros de tinta para transformar Travessa João Edimar no cenário verde e amarelo do hexa.
Guilherme Tavares, 21 anos, limpa o suor da testa com as costas da mão suja de tinta amarela. À volta dele, o cheiro forte de solvente toma conta da Travessa João Edimar, no bairro João Eduardo II, zona Leste de Rio Branco. São 9h30 de uma terça-feira de junho, e a rua parece um canteiro de obras a céu aberto. Mas aqui, o objetivo não é asfalto novo, e sim fé no hexacampeonato.
Há exatos 12 anos, nos dias que antecederam a Copa de 2014, os moradores desta mesma via decidiram que o cinza do asfalto não combinava com a expectativa brasileira. O que começou como um improviso virou o calendário oficial da vizinhança: a cada quatro anos, a Travessa João Edimar veste verde e amarelo. "A gente nem combinou direito. Foi um falando com o outro no pé de ouvido, e de repente já estávamos comprando tinta", conta Guilherme, um dos coordenadores da operação.
A logística de transformar uma via pública em um campo de torcida exige mais do que empolgação. São cerca de 450 metros de extensão, uma fita que serpenteia entre as casas simples do conjunto. Para cobrir tudo, a conta chegou a 450 litros de tinta — a divisão precisa de 15 latões de 30 litros. O dinheiro saiu de um vaquinha rápida, descontado da renda de cada família que ali vive.
O processo é demorado e cansativo, mas ninguém reclama do turno extra de trabalho. Durante o dia, a mão de obra é majoritariamente masculina, lidando com a aplicação pesada no chão. À tarde, as crianças chegam da escola e ajudam a fazer as faixas laterais, as pinturas de fundo de quadra ou os rabiscos de "Brasil" nas calçadas. "Aqui tem criança que nasceu depois da última pintura e agora já tá segurando o rolo", observa uma vizinha que assiste da varanda, recusando dar o nome, mas torcendo o nariz para a falta de infraestrutura que a rua costuma ter.
O apelido do lugar já diz muito: Rua do Fuxico. As informações correm mais rápido do que a tinta seca. Se falta amarelo na esquina da direita, alguém corre com um balde emprestado. Se um carro precisa sair da garagem, o pincel para num sinal combinado. É um organismo coletivo funcionando em sincronia, movido pela ansiedade do jogo inaugural, marcado para o próximo sábado (13).
A decoração não para no asfalto. As casas, alinhadas numa fileira compacta, penduram bandeiras nas grades das janelas e toalhas coloridas nos varais. A movimentação começa com o sol e muitas vezes só encerra na madrugada, iluminada pelas luzes da rua e pela farinha dos automóveis que passam devagar, curiosos. A prefeitura não investiu um centavo ali; a iniciativa é 100% de fundo de quintal, ou melhor, de asfalto.
Guilherme ajusta o rolo de espuma e volta para o meio da rua. Faltam ainda uns 50 metros para completar o fundo de quadra ideal. O planejamento é ficar pronto até sexta-feira, para descansar no sábado e preparar o churrasco antes da bola rolar. Para quem quiser conferir o resultado ou compartilhar da torcida presencial, o acesso é pela Avenida Getúlio Vargas, subindo a referência do mercado local. Dessa vez, a promessa da Rua do Fuxico é simples: se a Seleção não pode jogar em casa, o bairro vai virar o estádio.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



