ed. #023
nortıcia
nortícia · cidades · acre
Nortícia CidadesPrograma Impacta Mulher

Semulher abre 720 vagas em cursos gratuitos para mulheres no Acre

Capacitação em gastronomia e beleza visa autonomia financeira de vítimas de violência doméstica nos 22 municípios do estado.

a
Ananda Rocha
Acre · AM
01 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 727 palavras
Mulheres participam de aula prática de curso profissionalizante em sala de aula no Acre.
Capacitação em gastronomia e beleza visa autonomia financeira de vítimas de violência doméstica nos · Foto: Redação Nortícia

Dona Francisca da Silva, 34 anos, aperta o chinelo no ponto de ônibus da Avenida Ceará, no bairro da Conquista, em Rio Branco, todos os dias às 5h da manhã. Ela trabalha como diarista em três casas diferentes e precisa render o suficiente para pagar a creche do filho mais novo. Há dois anos, ela saiu de uma relação de violência doméstica, mas a independência financeira ainda é uma conta que não fecha. "Eu quero ter meu negócio. Quero saber que, se um homem bater na minha porta, eu tenho condição de dizer que não preciso dele", conta Francisca, enquanto o ônibus 205 atrasa mais uma vez.

A busca dessa autonomia agora tem um caminho concreto pavimentado pelo governo do estado. A Secretaria da Mulher do Acre (Semulher) abriu as inscrições para o Programa Impacta Mulher, oferecendo 720 vagas gratuitas em cursos profissionalizantes. A iniciativa não é apenas educativa; é uma ferramenta de segurança pública e cidadania para mulheres que vivenciaram ou vivem situações de violência. As vagas estão distribuídas em 36 turmas de 20 alunos, cobrindo os 22 municípios do Acre.

O foco da capacitação é em duas áreas que têm rápida entrada no mercado de trabalho e baixo custo para iniciar um empreendimento: gastronomia e beleza. Nas aulas de gastronomia, as mulheres aprendem desde a manipulação correta de alimentos, seguindo as normas da Anvisa, até a produção de doces regionais, salgados para venda e gestão de pequenos negócios. No ramo da beleza, o currículo inclui técnicas de manicure, pedicure, design de sobrancelha e cabelereiro, com ênfase em atendimento ao cliente e cuidados com a saúde ocupacional.

No interior, a expectativa é ainda maior. Em Brasileia, na fronteira com a Bolívia, a produtora rural Marta Gomes, 29, ouviu falar do programa através da rádio local. "Aqui na cidadezinha é difícil arranjar emprego formal. Se eu aprender mexer bem com cabelo, eu consigo atender as vizinhas e fazer uma renda limpa", projeta Marta. Ela conta que o medo de denunciar o agressor muitas vezes vem acompanhado do medo de não ter como sustentar os filhos. "Esse curso é essa ponte que a gente precisa. É a nossa carteira de trabalho saindo do papel", diz.

Vanessa Rosella, chefe do Departamento de Autonomia Econômica e Política de Cuidados da Semulher, explica que a secretaria entende que a violência doméstica tem raízes profundas na dependência econômica. "Estamos desenvolvendo políticas para o fortalecimento e a independência dessas mulheres. Quando a mulher tem o seu próprio dinheiro, ela consegue escolher onde quer viver, com quem quer conviver e, principalmente, ela consegue sair de um ciclo de violência que muitas vezes se perpetua pela falta de alternativa", afirmou Rosella em entrevista à Rede Amazônica nesta segunda-feira (1º).

Além da carga técnica, o programa oferece um componente de acolhimento. As turmas funcionam como redes de apoio, onde as mulheres podem compartilhar experiências e fortalecer laços comunitários. O ambiente da sala de aula é tratado como um espaço seguro, sigiloso e livre de julgamentos. A secretaria informou que, nos últimos anos, o índice de mulheres que conseguem o primeiro emprego formal logo após concluir esses cursos superou os 60%.

Para garantir a vaga, o processo foi simplificado para facilitar o acesso daquelas que enfrentam barreiras digitais ou de locomoção. Não é necessário ir presencialmente à sede da secretaria em Rio Branco. As inscrições são feitas de forma remota. A interessada deve acessar o perfil oficial da Semulher no Instagram (@semulherac) ou entrar em contato pelo telefone (68) 99930-0420. Durante o atendimento, a equipe faz o cadastro e verifica a disponibilidade de turma no município de residência da candidata.

De volta ao ponto de ônibus na Conquista, Dona Francisca anota o número da Semulher na capa do caderno de recibos. Ela diz que vai ligar assim que chegar do trabalho. "Eu já sei qual curso vou fazer: confeitaria. Minha avó me ensinou a fazer bolo de macaxeira, mas eu nunca fiz curso. Quero ter o papel, o certificado. Quero ver se o banco aprova meu empréstimo depois disso", planeja ela, enquanto o ônibus finalmente aparece na curva da avenida.

Mulheres interessadas em participar do Programa Impacta Mulher devem entrar em contato com a Secretaria da Mulher pelo Instagram @semulherac ou pelo telefone (68) 99930-0420, de segunda a sexta-feira, em horário comercial. As vagas são limitadas e as turmas serão formadas conforme a demanda de cada município.

a
◆ Repórter · Nortícia Cidades

Ananda Rocha

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

Reportagens como essa, no seu e-mail

Newsletter da Nortícia Cidades

Toda terça, uma carta com o que aconteceu de mais importante em cidades no Norte. Sem agenda, sem partido.