Amazonas perde água que encheria 178 piscinas olímpicas por dia, diz estudo
Levantamento aponta que 40,6% da água tratada se perde na distribuição por vazamentos e ligações clandestinas.
Dona Ana Bezerra, 48 anos, guarda três baldes de plástico no canto do banheiro do apartamento no Conjunto Monte das Oliveiras, zona Norte de Manaus. Ela não confia na torneira. 'Vai faltar quando eu menos espero', diz ela, enquanto lava a louça do almoço usando apenas o que reservou. Ana já passou três dias sem água abastecida no ano passado e aprendeu a não depender da sorte.
O receio da dona de casa não é paranoia. É estatística pura. O Amazonas desperdiça, todos os dias, água tratada suficiente para encher 178 piscinas olímpicas. Esse volume monumental, que jorra para o esgoto ou se perde no solo antes de chegar às casas, daria para encher quase 600 mil caixas d'água residenciais de 750 litros em um único dia.
O dado alarmante vem do 'Estudo de Perdas de Água 2025', divulgado nesta semana pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a consultoria GO Associados. O levantamento analisou os números do Sistema Nacional de Informações em Saneamento (SNIS) referentes a 2023 e revelou que 40,68% de tudo o que é tratado no estado simplesmente desaparece da distribuição.
Na prática, de cada 100 litros de água prontos para consumo, mais de 40 não chegam aos moradores. O motivo é uma mistura tóxica de velhice da rede, ligações clandestinas, desvios, furto e falhas crônicas de medição. É um paradoxo amazônico: enquanto a chuva enche a bacia do Rio Negro lá fora, dentro de casa o recurso é escasso e caro.
No bairro São José Operário, zona Oeste, o mecânico Raimundo Nonato, 55 anos, levanta a barra da calça para mostrar os pés enlameados na Rua 8. 'Toda semana tem rompimento aqui. A Águas de Manaus vem, aterra, fecha, mas a tubulação é velha demais, é gasta. A gente perde água limpa e ainda ganha dengue com a parada no quintal', reclama, indignado. Raimundo diz que a conta chega no fim do mês com taxas de esgoto, mas o serviço de abastecimento não acompanha.
A situação se repete em pontos nobres da zona Sul. Na avenida Djalma Batista, a estudante universitária Milena Alves, 22 anos, vê os buracos na via sendo abertos e fechados constantemente. 'É um ciclo sem fim. A rua fica um caos de trânsito por causa da obra, eles consertam o cano e depois abre outro buraco dez metros adiante. O desperdício é visível, a gente vê a água escorrendo ladeira abaixo e indo pro ralo, e ninguém explica por que a rede não aguenta', relata a estudante.
Procurada, a Águas de Manaus, concessionária que opera o serviço na capital, informou, por meio de sua assessoria, que reconhece o desafio estrutural e mantém um plano de metas para reverter o quadro. Em nota oficial, a empresa afirmou que investiu mais de R$ 120 milhões no último ano exclusivamente em renovação de redes e setorização de hidrômetros. 'Nossa meta é redução contínua do índice de perdas, focando em áreas com maior vulnerabilidade e infraestrutura antiga', diz o texto.
O estudo do Trata Brasil coloca o Amazonas ligeiramente acima da média nacional, que ficou em 40,31% em 2023. Não é o pior estado do país, mas a posição é desconfortável para uma região que detém a maior reserva de água doce do mundo. O problema de infraestrutura arrasta há décadas, ligado à falta de planejamento urbano e à ocupação desordenada de Manaus. A recuperação dessas perdas representaria, na prática, uma economia bilionária para os cofres públicos e uma garantia de direito fundamental para a população ribeirinha e urbana.
Para quem quer reclamar de vazamentos, falta d'água ou irregularidades na conta, o caminho é formalizar o pedido. O serviço pode ser acionado pelo telefone 0800 092 0195 ou pelo aplicativo oficial da Águas de Manaus, disponível para Android e iOS. É importante anotar o número do protocolo de atendimento. A concessionária tem prazo legal para responder e resolver os problemas reportados, desde que estejam devidamente registrados.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



