Amazonas triplica feminicídios em abril e maio, contrariando queda nacional
Estado registrou três mortes no período, contra um no ano anterior; país teve redução de 11,45% no indicador, segundo o Ministério da Justiça.
O painel do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) registrou um aumento de 200% nos casos de feminicídio no Amazonas no comparativo entre os meses de abril e maio de 2026 e o mesmo intervalo do ano anterior. Segundo levantamento consolidado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) divulgado nesta quinta-feira (18), o estado passou de um para três ocorrências no período. Os dados são enviados mensalmente pelas secretarias de segurança dos estados e agregados pela Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal.
De acordo com o boletim, os dois casos de abril e o único registro de maio ocorreram em municípios com perfis demográficos e logísticos distintos. As vítimas foram localizadas em Manaus, Barcelos e São Gabriel da Cachoeira. Os dois últimos municípios, situados na região do rio Negro, representam um desafio operacional para as forças de segurança devido à dificuldade de acesso, o que muitas vezes demanda o deslocamento de peritos e delegados por via fluvial ou aérea para a realização dos exames de corpo de delito e a presidência do inquérito policial.
No acumulado do ano de 2026, o Amazonas contabiliza nove feminicídios. Além das ocorrências na capital e nos municípios do Alto e Médio Rio Negro, a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) registrou casos em Carauari, Coari e Manaquiri. A distribuição geográfica dos crimes indica que o fenômeno não é exclusivo dos grandes centros urbanos, atingindo também zonas rurais e cidades do interior onde o acesso às redes de proteção à mulher é mais precário.
O cenário amazonense contrasta diretamente com a tendência nacional. Enquanto o estado triplicou o indicador no bimestre analisado, o Brasil apresentou uma queda de 11,45% no número de feminicídios no mesmo período. O país passou de 262 vítimas em abril e maio de 2025 para 232 em 2026. A redução de 30 casos a nível federal é interpretada pelo MJSP como um possível efeito das políticas de monitoramento de agressores de alto risco e da ampliação das medidas protetivas, embora a realidade local no Amazonas aponte para uma necessidade de reforço das ações de prevenção.
Para fins estatísticos no Sinesp, o feminicídio é classificado conforme o Artigo 121, VI, do Código Penal e a Lei 13.104/2015, que considera o crime quando há evidente razões de condição do sexo feminino ou quando o crime envolve violência doméstica e familiar. A tipificação inclui situações de menosprezo ou discriminação à mulher. O monitoramento desse indicador é essencial para o planejamento das ações da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) e dos demais órgãos do sistema de justiça criminal no estado.
As investigações referentes aos nove casos registrados em 2026 seguem em curso. Os inquéritos, tramitados nas delegacias de homicídios e nas DEAMs dos municípios de origem, apuram a autoria e a materialidade, bem como a existência de histórico de violência doméstica ou ameaça anteriores à consumação dos crimes. Após a conclusão dos procedimentos policiais, os autos serão remetidos ao Ministério Público Estadual para o oferecimento da denúncia criminal.
Diego Câmara
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
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