Amazonas fica em último em ranking de desenvolvimento sustentável na Amazônia Legal
Capital lidera índice estadual, mas interior puxa média para baixo; estado enfrenta desafios em infraestrutura e serviços básicos.
Dona Francisca Nazaré, 58 anos, faz fila na agência dos Correios no Conjunto Petro, zona Leste de Manaus, para pagar a conta de luz. Ela reclama da tarifa, mas sabe que tem privilégio: a energia chega todos os dias, coisa que a irmã dela em São Gabriel da Cachoeira, no interior do Amazonas, não vê com tanta constância.
Essa distância de quase mil quilômetros entre a realidade da capital e a do extremo norte é a razão do Amazonas estar na lanterninha do desenvolvimento sustentável na Amazônia Legal. O estado teve o pior desempenho regional no Índice Geral dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (iODS), divulgado na sexta-feira (5) pelo projeto Atlas ODS.
Enquanto a média dos 772 municípios da região ficou em 55,5 pontos, o Amazonas marcou apenas 51,5. O número não é à toa: ele revela que o progresso que acontece no asfalto de Manaus não caminha para a floresta adentro.
A metodologia do estudo usa a mediana dos municípios para não deixar que um só alto pontuador disfarce a dificuldade dos outros. Manaus, sozinha, é o município melhor avaliado do estado, com 66,68 pontos. Mas ao lado dela, 61 outros municípios arrastam a conta para baixo. O último do ranking amazonense é justamente São Gabriel da Cachoeira.
"Aqui na zona Leste falta asfalto, falta esgoto, mas Hospital de Pronto-Socorro tem. Lá no Jutaí ou em Barcelos, o doente morre esperando barco", diz Francisca, ajustando a bolsa no ombro. O levantamento aponta exatamente para essas falhas: reduzir a pobreza, ampliar serviços públicos e melhorar a infraestrutura são os desafios que impedem o Amazonas de cumprir a Agenda 2030 da ONU.
O Atlas ODS dá munição para a sociedade. Mostra que olhar só para a capital é um erro de cálculo. O saneamento básico, por exemplo, é um dos gargalos. Sem tratamento de esgoto e água tratada de qualidade, a saúde pública desaba e o índice de desenvolvimento acompanha o tombo.
Outro morador do Conjunto Petro, o pedreiro Raimundo Nonato, 45 anos, ouve a conversa e completa. "Meu irmão está em Coari. Lá o posto de saúde fecha de madrugada e se tiver parto, a correção vai pela lancha. Aqui a gente chama o SAMU e em 15 minutos tá lá. É dois Brasis".
A disparidade interna do Amazonas é a maior entre os estados da região. Para mudar o quadro na próxima medição, o investimento do governo estadual precisa ter endereço certo: não é apenas inaugurando viaduto no centro, mas levando energia estável, internet e médicos para as cidades que ficam fora do radar.
O ranking completo e os dados por município estão disponíveis na plataforma do Atlas ODS Amazônia. A ferramenta serve para cobrar prefeitos e vereadores na hora de votar o Plano Plurianual (PPA) e a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Quem não cumpre a meta, não vê verba.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



