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Voz de Ana Clézia se silencia aos 38 anos em Palmas; gospel do TO perde cantora

Cantora, integrante de dupla gospel, lutou contra pneumonia na UTI e deixou seguidores com mensagem de guerra espiritual.

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Karina Pinheiro
Tocantins · AM
06 de jun. de 2026
publicado
2 min
de leitura · 527 palavras
Cantora Ana Clézia segura microfone durante apresentação em palco iluminado em igreja de Palmas.
Cantora, integrante de dupla gospel, lutou contra pneumonia na UTI e deixou seguidores com mensagem · Foto: Redação Nortícia

O microfone preto de Ana Clézia exalava um cheiro de metal e suor seco após as gravações. Em Palmas, onde o calor deixa a pele pegajosa, ela segurava o aparelho com a mão direita, fechava os olhos e deixava a voz subir em escalas que faziam o teto do templo vibrar. Agora, o microfone repousa mudo e o silêncio tomou conta dos corações da comunidade gospel do Tocantins. Ana Clézia Silva, a voz que liderava a dupla Ana Clézia e Laudicéia, morreu nesta sexta-feira (5), aos 38 anos, vencida por uma pneumonia que se complicou na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Geral de Palmas.

Não era apenas a voz que ela emprestava aos cultos; era o corpo inteiro. Filha de pastor, Ana nasceu e cresceu mergulhada na teologia que se canta, não apenas se prega. O gospel contemporâneo no Norte tem essa pegada, de terreiro quente e entrega visceral, diferente dos estúdios climatizados do Sudeste. Ela e Laudicéia não eram apenas parceiras de melodia; eram irmãs de cena, compondo um bloco sonoro onde os vocais se entrelaçavam como cipós na floresta, firmes e difíceis de separar. A trajetória delas era feita de apresentações em igrejas de bairro, convenções que enchem ginásios e gravações caseiras que viralizavam no WhatsApp.

A batalha nos últimos dias, porém, não foi contra desafinação ou equipamento com defeito. Foi contra a própria fragilidade biológica. Internada, com a pressão arterial oscilando e os pulmões pedindo ar que a máquina não conseguia entregar com eficiência, Ana recorreu à linguagem que melhor dominava: a da guerra espiritual. No dia 15 de abril, poucas semanas antes de morrer, ela postou um vídeo mostrando os hematomas roxos nas pernas, marcas dos acessos hospitalares. "Estou viva e vamos pra guerra porque o nosso general é Cristo e ele nos garante vitória", declarou, com a voz um pouco mais fraca, mas o olhar ainda fixo na câmera.

No ambiente estéril da UTI, longe do rebatido do bumbo e das teclas que costumavam acompanhá-la, a "guerra" tomou um contorno de silêncio e aparelhos soando. A pneumonia associada à ventilação mecânica venceu. A notícia da morte correu rápido pelas redes sociais, transformando o perfil da artista em um memorial virtual. Não eram apenas fãs; eram irmãos de fé que viram nela a extensão de suas próprias orações. A comoção em Palmas e arredores não é apenas por uma cantora que morreu, mas por uma mensageira que interrompeu a transmissão antes do fim do hino.

O legado que fica não está em prateleiras de loja de disco, mas nos arquivos digitais e na memória auditiva de quem viu ela cantar. O gospel no Tocantins perde uma de suas principais vocalistas femininas, aquela que conseguia traduzir a angústia e a alegria da periferia em notas agudas.

O velório acontece em um clima de dor misturada com a esperança que ela professava. A família pede orações e privacidade para o sepultamento, mas as homenagens já pipocam em vídeos de regravações de suas músicas. Quem quiser ouvir o que ela deixou, basta buscar o nome nos streaming: a voz continua lá, gravada, prometendo a vitória que ela não conseguiu ver com os olhos da carne.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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