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Cantora gospel Ana Clézia morre em Palmas e deixa legado no cenário religioso do TO

Integrante da dupla com Laudicéia, a artista de 38 anos enfrentava graves complicações de saúde e era reconhecida pela força vocal e dedicação.

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Karina Pinheiro
Tocantins · AM
05 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 646 palavras
Microfone deitado sobre um palco iluminado em igreja evangélica.
Integrante da dupla com Laudicéia, a artista de 38 anos enfrentava graves complicações de saúde e er · Foto: Redação Nortícia

O microfone costumava tremer na mão de Ana Clézia quando o refrão subia. Não era nervosismo, nem falha no equipamento, mas o peso físico de uma voz que parecia necessitar de mais força que o corpo para sair. Nos palcos modestos das assembleias e igrejas evangélicas de Palmas, onde o ar condicionado às vezes compete com o calor humano e o cheiro de madeira velha, ela, com seus 38 anos, conduzia a energia da dupla Ana Clézia e Laudicéia como quem manobra um barco nas corredeiras do rio Tocantins: firme, cheia de propósito, temendo o afundamento, mas confiando na correnteza.

A notícia da morte dela, na manhã desta sexta-feira (5), na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Geral de Palmas, silenciou um instrumento que estava afinado para o louvor, mas que tocava sobretudo na frequência do cotidiano. Ela estava internada, mergulhada em um coma profundo causado por complicações severas — uma pressão arterial que teimava em cair, uma pneumonia agressiva que resistia contra a ventilação mecânica. A equipe médica tentou a hemodiálise na quinta-feira, um derradeiro esforço técnico, uma manobra de último recurso para segurar a vida que escorria pelos dedos, mas a instabilidade clínica venceu a precisão da ciência.

No Tocantins, o gospel não é apenas um gênero musical que se confina aos templos de tijolos e vidro; é a trilha sonora não oficial do estado, o pulso que marca o tempo fora do relógio. É o que toca no rádio do táxi coletivo que desce a 303, na loja de conveniência do bairro, no celular do motoboy que espera o sinal verde na Avenida JK. A música religiosa produzida no Norte, e especificamente no planalto tocantinense, carrega uma cadência diferente, uma mistura de melisma com a raiz do sertão que torna o “amém” algo cantado com sotaque, com a boca cheia de vogais abertas. Ana Clézia e Laudicéia entendiam essa gramática local profundamente. Elas não cantavam apenas para o divino, mas para a mãe que sozinha cria os filhos no ARNS 102, para o jovem que tentava achar o primeiro emprego, para o comerciante da Feira do Sul que ligava o rádio buscando conforto para mais uma semana de trabalho.

Os boletins médicos, frios em sua precisão clínica, falavam de falência de múltiplos órgãos e instabilidade hemodinâmica. Termos técnicos que não traduzem a urgência quente, quase febril, das correntes de oração que circularam pelo WhatsApp e pelos grupos de vizinhança nos últimos dias. O que restou do outro lado da porta da UTI foi a memória de uma mulher que transformava a vulnerabilidade em potência vocal. O gospel tem essa função social quase terapêutica: é a alquimia da dor pública em melodia compartilhada. É cantar para não chorar, ou chorar cantando.

A perda de Ana Clézia deixa um vazio na harmonia da dupla e um luto aberto, dilacerado, na comunidade evangélica, que na manhã de hoje trocou os aleluias de domingo pelo silêncio do luto. A cidade de Palmas, construída em linhas retas sobre o cerrado, hoje sente o desenho do próprio chão tremendo. Fica a imagem de uma mulher no palco, de cabelos muitas vezes presos, outras vezes soltos ao vento do ventilador, fechando os olhos para entender a música antes de emitir o primeiro som, deixando a alma chegar antes da voz.

Laudicéia segue, agora com o peso dobrado de quem ficou para contar a história. Mas a história de Ana Clézia não está fechada. Ela permanece nos teclados que simulam órgãos nas igrejas periféricas, nas caixas de som que estalam nos fundos de quintal, na memória afetiva de quem via naquela música uma saída. Para quem deseja prestar homenagem ou conhecer o trabalho da cantora, as plataformas de streaming mantêm o catálogo da dupla disponível, arquivado na nuvem, mas com raízes fincadas no chão vermelho do Tocantins. A música permanece, etérea e concreta, servindo agora como consolo para os que ficaram.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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