RaySom, voz do forró pé-de-serra em Roraima, morre aos 61 anos
Músico faleceu em Fortaleza após complicações de uma cirurgia; deixou um legado de 45 anos e um exemplo de solidariedade artística em Boa Vista.
O som da tecla de RaySom tinha um peso de chumbo fundido na madrugada de Boa Vista. Nos salões de Roraima, onde o ar seco e quente do extremo Norte se misturava ao cheiro de cerveja gelada e suor de camisa de linho, o teclado dele não apenas acompanhava: ele liderava a arruada. Era um forró pé-de-serra tocado em teclas brancas, um zabumba eletrônico que fazia o piso de cimento vibrar e a multidão roçar os ombros sem cerimônia, dançando até o sol nascer atrás da serra. RaySom tocava não para ouvir, mas para fazer o sangue correr mais rápido nas veias de um povo acostumado ao calor.
Raimundo de Oliveira Monteiro, o RaySom, partiu na madrugada desta sexta-feira (5), aos 61 anos. A morte veio longe de casa, em uma Unidade de Terapia Intensiva de Fortaleza, no Ceará, onde ele travava uma batalha silenciosa e dura contra um tumor no intestino. O corpo não resistiu às complicações pós-cirúrgicas, mas a história que ele construiu nos palcos improvisados e nos grandes clubes de Roraima permanece entranhada na memória afetiva de quem viveu as noites de Boa Vista nas últimas quatro décadas e meia.
RaySom não era um músico de passagem ou um amador da sorte. Ele plantou raízes profundas no cenário musical de um estado que, muitas vezes, luta para ecoar sua própria voz fora das fronteiras regionais. Foram 45 anos de carreira dedicados ao forró, um ritmo que no Norte ganha contornos de sobrevivência, de encontro e de alegria comunitária. Ele era o homem que fazia a ponte entre a tradição nordestina, trazida nas bagagens dos migrantes que construíram Roraima, e a identidade local, fazendo a sanfona — ou seu equivalente em teclas modernas — falar a língua dos povos da savana e da floresta. Ele entendia que o forró do Norte precisa ser mais forte, mais denso, para ser ouvido acima da vastidão do território.
A força dessa conexão que RaySom estabeleceu com a comunidade ficou dolorosamente evidente em março deste ano. Não foi apenas um show beneficente; foi um ato de amor e resistência cultural. Cinquenta músicos de Roraima, de diferentes estilos e gerações, deixaram o ego de lado e subiram ao palco juntos para cantar em prol do tratamento de saúde do mestre. Imagina o cenário: palco lotado, cabos entrelaçados, instrumentos de todos os naipes — desde a guitarra solo até o pandeiro — microfones abertos, todos afinados pela mesma causa. Não era apenas pelo custo do tratamento em Fortaleza, mas pelo respeito ao ofício de quem faz da música o ganha-pão e a razão de viver. É essa solidariedade tupiniquim, esse puxirum invisível, que define a cena cultural do Norte, onde os artistas se reconhecem no olhar e na dificuldade.
O tecladista deixa o filho Nylo Monteiro, o jornalista, e deixa um vazio sonoro na noite de Boa Vista que não será preenchido tão cedo. O forró pé-de-serra pede presença física, pede o ofego do artista no microfone, o suor caindo nos olhos enquanto o dedo martela a tecla no ritmo frenético do xamego. RaySom entregava tudo isso com a generosidade de quem sabe que a festa é um momento sagrado para o trabalhador que labuta o dia todo. A notícia da morte chega como um fim de festa abrupto, com as luzes da casa se acendendo antes da hora, revelando o cansaço nos rostos dos que ficam, mas também a certeza de que a música tocou fundo.
Para quem quiser sentir um pouco da herança deixada por Raimundo, vale buscar os registros fonográficos antigos que circulam pelas feiras de Boa Vista ou ouvir as gravações amadoras que capturam a energia elétrica de seus shows. O som continua vivo, vibrando na frequência de quem entende que forró não é apenas gênero musical para vender ingresso, é um modo de viver o Norte e de resistir ao esquecimento. A festa continua, mas falta o rasgo da tecla.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



