Arraiá do Bartião une tradição e brega em Santa Bárbara do Pará
32ª edição da festa na Feira do Produtor terá shows de Suanny Batidão e Sabino do Acordeon.
O cheiro de milho assado na brasa invade a subida da Feira do Produtor antes mesmo de o primeiro acorde da sanfona ser tocado. É Seu João, de 58 anos, quem cuida da fogueira há duas décadas no Arraiá do Bartião, em Santa Bárbara do Pará. Ele garante o ponto da espiga: se o grão estiver duro, ninguém volta no ano seguinte. O fogo crepita, iluminando as bandeirinhas que balançam no ar úmido da Grande Belém.
O Arraiá do Bartião completa 32 edições em 2026 mantendo a proposta que o tornou um dos eventos mais queridos do calendário junino fora da capital: ser a festa do povo, sem o pavone das grandes cidades. Nos dias 6 e 7 de junho, o evento que acontece na Feira do Produtor promete transformar o espaço de comércio rural no maior palco de celebração da cultura barbarensa. Não é apenas música; é uma afirmação de identidade.
Quem sobe ao palco para comandar a farra é Suanny Batidão. A cantora, voz conhecida nos bailes de periferia e nas rádios locais, traz para o São João o ritmo que faz a molecada pular. Não é o forró clássico que avô costuma ouvir, mas a batida que mistura o brega paraense com o calor da festa junina. É o som que traduz a alegria de uma região que não para de crescer.
Mas o equilíbrio da programação vem com Sabino do Acordeon. Enquanto Suanny toca o futuro, Sabino resgata a raiz. O sanfoneiro carrega nos foles a memória dos pés descalços nos terreiros do interior. Ele divide a atração com o grupo Bom de Farra e Ciro Marcelo, garantindo que não falte xote, baião e vanerão para a velha guarda dançar. As notas da sanfona cortam a noite, lembrando que o São João no Norte é, acima de tudo, instrumento de corda na mão.
A festa, no entanto, respira também pelo comércio. Durante os dois dias de evento, agricultores familiares e artesãos da região veem o fluxo de gente se transformar em renda. As barracas que vendem tacacá, tucupi, pamonha e as receitas caseiras de canjica e pé-de-moleque são o coração pulsante do Arraiá. O encontro movimenta a economia local de forma direta, mantendo vivo o ciclo da feira que, neste fim de semana, vira festa.
O antropólogo Raimundo Gomes, que estuda festas populares na região metropolitana, observa que eventos como o Bartião são fundamentais para a manutenção da memória coletiva. "Santa Bárbara é uma cidade que se reinventa pela festa. Aqui, o São João não é apenas uma data no calendário, é o momento em que a comunidade se reconhece na rua, nos cheiros e na música", explica. É onde a cultura vira patrimônio vivido.
As apresentações das quadrilhas juninas e grupos folclóricos garantem o espetáculo visual. As saias coloridas, os chapéus de palha e a pintura no rosto dão o tom cênico, mas a autenticidade está na espontaneidade dos passos. Não se busca a perfeição do campeonato televisivo, mas a alegria do brincante que dança para a plateia e para si mesmo. O tema deste ano, "Celebrando a Cultura e as Tradições Barbarenses", não é apenas slogan no barraco; é fala de quem vive ali.
A animação continua com os DJs Bazola, Matheus Cei, Carlinho e Rilson, que fecham as noites misturando o tecnobrega com o axé, garantindo que ninguém fique parado. A expectativa é de milhares de pessoas, vindas não só de Santa Bárbara, mas de Ananindeua, Marituba e da própria capital, em busca de um São João com gosto de terra e suor.
O Arraiá do Bartião acontece na Feira do Produtor, em Santa Bárbara do Pará, nos dias 6 e 7 de junho. A entrada é franca. O conselho é chegar cedo para garantir um pedaço de banco e provar o milho de Seu João antes que acabe.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



