Arraial Bera 2026 traz quadrilhas e prêmios à Estrada de Ferro em Porto Velho
Evento gratuito acontece no Complexo da Madeira-Mamoré com competição de quadrilhas e prêmio total de R$ 45 mil entre 25 e 28 de junho.
O cheiro de pólvora de bombinha e fumaça de churrasco vai se misturar de um jeito inédito com o óleo que impregna as velhas vigas de ferro da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Em Porto Velho, a festa de São João deste ano muda de cenário e de cheiro: o Arraial Bera 2026 deixa as quadras de cimento e se instala no Complexo da Estrada de Ferro, onde o pó de tijolo ainda guarda a memória dos trens que um dia cruzaram a floresta. É lá, à beira do Rio Madeira, que o som rasgado da sanfona vai bater contra as paredes de pedra da estação histórica entre os dias 25 e 28 de junho, criando uma acústica natural que os ginásios esportivos não têm.
Não é só uma mudança de endereço. É o encontro da memória industrial do Norte com a tradição rústica do matuto. O Arraial Bera promete transformar o espaço que antes recebeu passageiros e cargas da borracha em um palco a céu aberto para as maiores quadrilhas de Porto Velho. A ideia é ocupar a história com cultura popular, fazendo a arquitetura monumental funcionar como cenário para o brilho miçangado das saias de chita. O pôr do sol, visto das plataformas da ferrovia, vai pintar de laranja o céu enquanto as luzes do arraial começam a piscar.
No centro da atenção está a competição entre quadrilhas da categoria adulta. Aqui não se brinca de ser caipora; é representação profissional. Os ensaios começam meses antes, em galpões fechados no bairro do Triângulo, onde o cheiro de tinta à base de água e o barulho de martelos pregando solados de sapatos de couro fazem a trilha sonora da preparação. Nos bastidores, o ar fica pesado de pó de talco, spray de cabelo e o suor de quem repete o passo do xote até a perfeição. O investimento é alto, e a premiação reflete isso: R$ 45 mil divididos entre os três primeiros lugares. A campeã embolsa R$ 20 mil, um valor que ajuda a custear os adereços do ano seguinte e alimenta o sonho de subir no palco da Brazil Juninos.
"A quadrilha em Rondônia tem uma identidade forte, mistura o nordestino que veio construir a ferrovia com o caboclo daqui", explica um pesquisador local ligado ao folclore rondoniense. Nos passos marcados, vê-se a influência do boi-bumbá e do carimbó, uma identidade amazônica que se impõe sobre o padrão do Nordeste. O figurino, muitas vezes, usa elementos da flora local — sementes, palha de babaçu — costurados à mão por mães e filhas nos meses que antecedem a festa. O "balão" que entra na apresentação não é de papel qualquer; é uma obra de arte em arame e seda, carregado com orgulho por um casal de noivos da quadrilha.
Além da disputa, o Arraial Bera traz o arraial de verdade. As cordas de viola começam a tocar cedo, e o cardápio é um convite à fome: milho verde assado na palha, pamonha que derrete na boca, bolo de macaxeira e o caldo de tucunaré para quem prefere o peixe do rio à carne de sol. A gastronomia junina em Porto Velho tem essa cara de fronteira, de gente que vem de todo lugar para comer e dançar junto. Não falta o vinho quente para as noites que podem ficar amenas pela brisa do Madeira, mas o cacimbão de cachaça com gengibre é o favorito para esquentar o peito antes da puxada de cordão.
O público esperado é grande. Como a entrada é franca, o complexo ferroviário deve lotar nas noites de quinta a domingo. As lanternas de papel vão iluminar a via férrea, e o coreto montado no pátio vai receber shows de forró eletrônico e "pé-de-serra". É a oportunidade de ver a cidade antiga ganhando vida nova, sem a correria do comércio, mas com o ritmo cadenciado do baião. A expectativa da prefeitura é que a estrutura histórica valorize a apresentação dos cerca de 300 dançarinos que devem circular pelo local.
O Arraial Bera 2026 acontece de 25 a 28 de junho, no Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em Porto Velho. A abertura das portas é às 18h, com entrada franca. Vale chegar cedo para garantir lugar na arquibancada e ver de perto quem leva o prêmio de melhor quadrilha, enquanto o cheiro de pirotecnia marca o início de mais um São João à beira do Madeira.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



