Mesmo com decisão judicial, aulas da rede municipal não se normalizam em Rio Branco
Apesar de suspensão da greve pela Justiça, professores denunciam precariedade no MP-AC e pais enfrentam incerteza sobre o funcionamento das escolas.
Dona Célia Rodrigues, 42 anos, costureira e mãe da estudante Bárbara, de 9 anos, parou o trabalho duas vezes na manhã desta sexta-feira (29) para checar o celular. No grupo de WhatsApp da Escola Municipal Padre Peregrino, na Zona Sul de Rio Branco, a mensagem era alentadora: aulas retomadas. Mas fora dos muros dessa unidade, a rede municipal ainda respirava pela boca do turbilhão. A informação oficial dizia que a greve estava suspensa, mas a prática nas portas das escolas mostrava um cenário bem diferente.
A greve dos servidores da educação, iniciada no dia 20 de maio, tinha sido suspensa pela Justiça. O papel da decisão judicial, no entanto, demorou a virar prática no concreto das escolas. Pelo menos 51 instituições — entre creches e Centros de Educação Infantil (CEIs) — seguiam com atividades suspensas ou funcionando de forma precária. O Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sinteac) confirmou ao Poder Judiciário o fim do movimento paredista, mas o retorno à sala de aula esbarrou em denúncias de falta de estrutura.
Enquanto pais como Célia tentavam decifrar se a porta estaria aberta, um grupo de servidores seguia rota diversa. Eles não foram para a sala de aula, mas para a sede do Ministério Público do Acre (MP-AC). O objetivo não era defender a greve, mas denunciar o que eles chamam de precariedade estrutural das unidades. A reclamação vai além do reajuste salarial que motivou o movimento inicial: a denúncia aponta falta de condições mínimas para receber de volta os alunos. É telhado que vaza, é falta de merenda, é sala sem carteira suficiente.
O comunicado enviado aos pais da Escola Padre Peregrino foi um sinal isolado de normalidade em um mar de dúvidas. A direção avisou sobre o retorno, e as portas se abriram. Mas na maioria das unidades, a confirmação do número exato de colégios em efetiva atividade era um dado que a Secretaria de Educação ainda não conseguia fechar com precisão ao fim do dia. Nas ruas, o relato era de confusão. Professores chegavam, mas não havia alunos, ou alunos chegavam e encontravam as portas fechadas por falta de manutenção básica.
O impasse de mais de uma semana deixou uma fila de conteúdo a ser repassado e uma ansiedade acumulada nas famílias. A decisão judicial determinou o retorno, mas não resolveu a raiz do desconforto que levou os professores às ruas. A categoria cobra melhorias nas condições de trabalho, e a ida coletiva ao MP-AC reforça que o diálogo não foi encerrado, apenas mudou de endereço. A reclamação agora é formal: o retorno ao trabalho não pode significar aceitar prédios em ruínas ou falta de materiais didáticos básicos.
Para quem está do lado de fora, o prejuízo é concreto. Dona Célia conta que precisou deixar a filha na vizinha ontem, quinta, porque a incerteza era grande. "Não dá pra arriscar deixar a criança na porta e a escola não abrir", conta. O funcionamento irregular afeta a rotina de trabalho dos pais e o aprendizado das crianças, que já somam dias letivos perdidos em um ano que mal começou.
Para a próxima semana, o desafio da gestão municipal é garantir que o turno da manhã e o da tarde aconteçam sem sustos e que as denúncias feitas ao MP-AC sejam investigadas. Pais e responsáveis devem manter a atenção aos canais oficiais de cada unidade para confirmação diária, já que o cenário ainda é volátil. Reclamações sobre a falta de estrutura ou não-retorno das aulas podem ser encaminhadas ao próprio Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sinteac) ou à Ouvidoria Municipal.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



