Bar da Rosinha: em Boa Vista, o cardápio obedece ao que o rio dá
Indígena transforma pescaria do dia em refeição servida sob mangueiras em Boa Vista.
Rosinete de Oliveira, 54 anos, acende o fogo de lenha bem cedo no quintal do Bar da Rosinha, no bairro Jardim das Copaíbas, em Boa Vista. A fumaça sobe, encontra seu caminho entre as galhas das mangueiras carregadas e vai se espalhar pelo ar fino de Roraima. Ela espera o pescador chegar, não com uma lista de encomenda fixa, mas com o que o Rio Branco decidiu oferecer naquela manhã. É uma espera silenciosa que se parece com oração, feita de atenção e paciência, olhos fixos no caminho de terra que vem da margem.
Há quase dois anos, Dona Rosinha, como é conhecida por todos os cantos da cidade, transformou o dom de cozinhar e a sabedoria indígena de quem cresceu à beira da água neste ponto de encontro sólido. Aqui, ninguém escolhe o peixe pelo preço ou pela foto ilustrada de um cardápio impresso; o cliente come o que o rio trouxe, seja um pacu gordo, uma cabeça gorda suculenta, uma branquinha delicada ou um surubim de couro. É uma forma de rezar sem tirar as botas da lama, de aceitar o dia como ele vem, com suas surpresas e suas farturas.
O fogão à lenha é o coração que bate forte no quintal. É nele, sobre o ferro aquecido ao rubro, que ela frita o peixe que chega nas mãos calejadas dos ribeirinhos da região. Ela limpa, corta e empana com a calma e a precisão de quem já viu muitas águas passarem e muitas luas crescerem. A farinha de triso gruda na carne fresca, criando uma casquinha dourada que estala quando se morde. O cheiro que impregna o pano da mesa e a roupa de dona de casa não é de óleo comum; é o cheiro de memória, de um tempo em que o alimento não vinha da prateleira, mas da canoa e da confiança.
Ela planta suas próprias pimentas no fundo do quintal, cuidando delas como se cuida de um filho pequeno. Faz o molho caseiro, puxado para o forte, que acompanha o baião de dois e a farofa solta que derrama. Tudo é servido em pratos de louça simples, debaixo da sombra generosa que protege do sol quente da zona Oeste. O vinagrete, picadinho bem miúdo, refresca a boca e completa o prato. Quem come ali sente, no fundo, que está participando de algo que vai muito além da fome; entra no território da partilha, de um convívio que a cidade moderna foi deixando para trás.
"Sempre varia, é aquilo que Deus dá", diz ela, limpando o suor da testa com o dorso da mão enquanto vira um peixe na frigideira com um garfo de ferro. A frase sai natural, sem teatralidade, misturada ao crepitar da lenha. Para Rosinha, o rio é generoso, mas tem seus mistérios e seus ciclos. Respeitar o tempo da pesca é respeitar a vida que vem da água, é entender que nem sempre se tem o que se quer, mas se tem o que é preciso. Às vezes vem peixe de pele, como o dourado ou a sardinha, e o cardápio muda, obedecendo a uma ordem maior que a do dinheiro.
Os clientes são vizinhos, trabalhadores da região, quem gosta de peixe de verdade, de peixe com espinha e com o gosto marcante de rio. Não há pressa na hora de comer. O bar não é feito de rodinha rápida; é um lugar para parar, para conversar sobre o dia, para olhar as águas que correm não muito longe dali. As mangueiras escutam as histórias de quem chega cansado do serviço e sai com o estômago cheio e o espírito um pouco mais leve, como quem acabou de receber uma bênção sem ter entrado na igreja.
É a história de uma mulher indígena que sustenta a família mantendo vivo o vínculo sagrado com o território. No meio da cidade de concreto e asfalto, ela mantém uma janela aberta para o fluxo das águas e para os saberes antigos. O Bar da Rosinha não é apenas um comércio para garantir o fim do mês; é um altar onde a oferenda é um bom prato de comida feito com tempo e carinho. É a resistência gentil de quem não esqueceu de onde vem.
A tarde avança e a fumaça baixa, a lenha vira brasa e depois cinza. Dona Rosinha serve mais uma tabela, limpa um prato, olha para o horizonte enquanto o sol começa a descer. O Rio Branco corre lá longe, silencioso e constante, garantindo que amanhã haverá peixe na frigideira de novo, e que o fogo vai se acender uma vez mais para alimentar quem passa, mantendo viva a chama da tradição em Boa Vista.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



