Bombeiros salvam bebê de 14 dias após engasgo em Rio Branco
Menina foi atendida no Conjunto Habitar Brasil após parada respiratória; socorrista comemora o retorno do 'choro da vida'.
Lucas Ramon Cruz Barros, combatente do 3º Batalhão de Educação, Proteção e Combate a Incêndio Florestal, sobe os degraus da varanda no Conjunto Habitar Brasil com a urgência de quem sabe que ali o tempo se mede em segundos. Diante dele, a cena paralisa o ar: uma menina de apenas quatorze dias, roxa, sem tônus, nos braços de uma mãe que já não sabe se chora ou se reza. Era uma tarde comum de amamentação, um momento de intimidade e nutrição, até o leite descer errado, travando o pulmão daquela vida que mal começara a conhecer o mundo.
No Acre, o calor úmido costuma ser o peso que nos cansa no fim da tarde, mas naquele momento na casa de Rio Branco, o peso era o medo absoluto. A mãe, ao perceber que a filha não conseguia respirar, sentiu o chão desaparecer. Não teve dúvida. Ligou para o 193 e entregou o destino do seu bebê à estrada e à oração. Enquanto o telefone desligava, cada segundo parecia uma década. Quando a viatura parou na rua e Lucas desceu, a espera parecia ter durado uma eternidade, embora fossem apenas minutos.
O socorrista encontrou a criança com o tônus muscular diminuído, o corpo mole, a cor fugindo do rosto, a vida pendendo por um fio tênue. Não há treinamento na academia que nos blinde totalmente da fragilidade extrema de um recém-nascido. Lucas olhou para aquela menina, pequena demais para tanto sofrimento, e recorreu à técnica, à manobra precisa que aprendeu nos livros, mas executou com a delicadeza que aquela pele nova exigia. O relato dele é simples, mas carrega o peso de quem viu o milagre acontecer entre as mãos.
"A criança já estava ficando roxa quando chegamos, a técnica foi feita respeitando o ciclo pedido e, graças a Deus, com o choro da vida, ela foi retornando e todos ficamos aliviados", contou Lucas.
O "choro da vida" é uma expressão bonita demais para ser apenas figurativa. É o som que anuncia que o caminho permanece aberto. Quando o primeiro grito forte rompeu o silêncio daquele engasgo, não foi apenas a menina que voltou a respirar. Foi a mãe que exalou o ar que prendia no peito, a tensão saiu dos ombros, a casa inteira desanuviou. Para os bombeiros, ali na varanda simples, o combate não era contra o fogo ou a floresta, mas contra o silêncio da morte. E foi a vida que venceu, com sua sonoridade alta e inegável.
A menina foi estabilizada rapidamente no local e levada para uma unidade de saúde para o devido acompanhamento médico. De lá, haverá exames, observação, o cuidado da ciência e a atenção dos enfermeiros. Mas na memória daquela varanda no Habitar Brasil, ficará para sempre o instante em que o choro devolveu a cor ao dia. É assim que a solidariedade funciona em uma cidade como Rio Branco; uns correm para salvar, outros rezam na expectativa, e todos partilham o alívio quando o perigo passa.
São esses gestos de dedicação, essa resposta rápida e firme que não mede esforços, que tecem a rede de proteção que nos sustenta. Fico pensando na mãe agora, talvez algumas horas depois, olhando para a filha dormindo no berço, redescobrindo a graça de cada respiração tranquila, o movimento suave do peito sob o lençol. E no Lucas, voltando para o quartel, com o uniforme manchado de poeira e o coração aliviado, sabendo que mais uma vez o bem venceu o medo. A vida venceu. E o som do choro, que antes era sinal de alarme, agora é apenas a música de quem está aqui para ficar.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



