Jovem de Palmas viaja de moto ao Chile e vive o primeiro contato com a neve
Luiz Fernando percorreu mais de 5 mil quilômetros da América do Sul para sentir o frio da neve, algo que só conhecia pelo cinema.
Luiz Fernando Sousa de Almeida, 22 anos, estica a mão fora da luva para sentir o frio que vem da montanha. No espelho retrovisor, a estrada branca some na neblina, e a moto, uma pequena 150cc, tremeluz com o peso das malas e das expectativas. Ele acelera suavemente, e o motor ronca como um coração nervoso naquela altitude onde o ar é fino e silencioso.
Deixou Palmas quando o sol ainda castigava o asfalto do Cerrado. Trocou o shorts por calças térmicas, a camiseta por casacas impermeáveis, e partiu com Kassio Ferreira e Victor Cavalcante. Três amigos tocantinenses em um pelotão de vinte motociclistas atravessando o mapa da América do Sul.
Não foi uma viagem de aeroporto, rápida e estéril. Foi pelo chão. Cruzaram o Pantanal, sentiram o vento do Chaco, subiram as serras da Bolívia. A moto de baixa cilindrada, que alguns diriam ser frágil para tamanha façanha, revelou-se fiel companheira. No acostamento, as paradas para café eram encontros de pneus sujos de lama e olhos brilhando de espanto. "A ideia era fazer essa grande aventura e o mais legal é que fomos de moto, e ainda por cima de baixa cilindrada, o que deixou tudo ainda mais desafiador e especial", relembra Luiz.
No Chile, a geografia mudou de cor. O verde amarelado deu lugar ao branco absoluto. Luiz parou a moto, tirou o capacete e deixou flocos de neve tocarem seu rosto. Para quem nasceu sob o céu quase sempre azul e quente do Tocantins, aquilo era um milagre físico. Era como se o tempo tivesse congelado em uma fotografia antiga. "A neve foi o momento mais marcante, porque era algo que eu só via em filmes e nunca imaginei que um dia estaria vivendo isso pessoalmente", diz, lembrando a sensação de pisar no gelo, escorregar e rir como criança.
Mas ali não estava apenas um turista. Ele carregava na placa da moto e no sotaque a marca de sua gente. Representar o Tocantins naquele cenário distante tinha um peso de orgulho silencioso. Mostrar que o jovem do interior não está preso à tela do celular, mas busca o horizonte.
Essas travessias lembram as romarias de nossos antepassados, que iam a pé ou de lombo de burro até o santuário. O corpo cansa, o espírito se eleva. A estrada é o melhor lugar para se ouvir o pensamento e agradecer pela capacidade de movimento. Luiz, Kassio e Victor voltaram para casa com as fotos e os vídeos, claro, mas trouxeram principalmente a certeza de que o mundo é generoso para quem tem a coragem de sair da porta.
O frio passa, o corpo volta a se aquecer sob o sol de Palmas. Mas nas gavetas da memória, Luiz guarda a imagem da estrada branca. Ele ajeita a luva novamente, dá a partida na moto estacionada na garagem, e por um segundo imagina que a neblina lá fora não é poeira, mas o resquício de um sonho realizado.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



