Mãe cumpre promessa e deixa UTI com filha vestida de Nossa Senhora no Acre
Rania Maria Santos caminhou de joelhos pelo Hospital da Mulher e da Criança do Juruá em gratidão pela alta da bebê prematura.
Rania Maria Santos, 24 anos, costura o último ponto na barra do tecido azul cetim sob a luz amarela do corredor. É noite em Cruzeiro do Sul e o som da chuva forte na região do Juruá bate no telhado de zinco. No berço ao lado, separada por um vidro, Maria Alicia, com seus 970 gramas de vida recomeçada, dorme aquecida dentro da incubadora. Há trinta e quatro dias Rania vive nesse ritmo de espera: o medo de olhar os monitores, a esperança de ouvir o apito que diz que o oxigênio está estável. A roupa que ela costura com agulha e linha emprestada não é um vestido de batizado comum. É a promessa.
Quando a filha nasceu prematura, o mundo de Rania desandou. A UTI Neonatal do Hospital da Mulher e da Criança é um lugar de luzes fortes e barulhos de aparelhos, onde o tempo não anda, ele arrasta. Nesse corredor, a fé não se diz em latim nem em rituais solenes de catedral. Ela se diz no joelho em cima do chão frio e na promessa feita para a santa morena, a padroeira que o povo do Norte tanto ama e entende. Nossa Senhora Aparecida. Rania prometeu que, se a menina saísse dali, sairia vestida dela. E que ela, Rania, faria o caminho de saída de joelhos.
A devoção popular é assim: visceral, feita de carne e unha. Não é teologia de seminário, é o desespero virando oração. Durante aqueles trinta e quatro dias, Rania viu outras mães chegarem, chorando no ombro de quem nem conhecia, e outras desistindo. O choro de uma mistura com o da outra no silêncio da madrugada. Mas ela segurava o terço no bolso do avental, contava as contas sem olhar, e acreditava que a pequena Maria Alicia, apesar de tão frágil, ia lutar. E a menina lutou. Dia após dia, ganhou peso, ganhou cor, ganhou fôlego.
O dia da alta é diferente de todos os outros. Os enfermeiros, que já conhecem a história da "mãe da promessa", preparam o espaço e avisam os demais. Rania tira os chinelos. O joelho toca o linóleo do hospital. É um gesto duro, de dor física, mas ela não reclama, nem se curva para o lado. Veste a filha com o manto azul, coloca a coroa de papel dourado na cabeça que ainda nem tem muito cabelo. O contraste é forte e bonito: a tecnologia de ponta da UTI, os médicos de jaleco branco, e ali, uma mãe ajoelhada, carregando uma santa de carne e osso.
"É um caminho difícil, cheio de desafios e incertezas, mas cada pequena conquista faz a diferença", diz Rania, lembrando os dias em que a luz vermelha piscava. "Houve momentos em que pensei que não conseguiria seguir em frente, mas aprendi a confiar no processo e a acreditar que dias melhores viriam. Com certeza não vou sair a mesma pessoa que entrei."
A caminhada é curta em metros, mas longa na memória de quem assiste. As outras famílias param nos quartos, olham pela fresta da porta. Há um respeito silencioso, o reconhecimento de uma dor que também foi deles. Alguns tiram fotos, outros apenas fecham os olhos e pedem uma graça também. Não é um show. É o testemunho de quem viu o milagre acontecer na lentidão dos dias, sem trovões nem raios. Rania carrega a promessa cumprida e, mais do que isso, carrega a vida que voltou a pulsar forte.
Na saída, o sol do interior do Acre está quente, bate no rosto. O ar da rua tem cheiro de mato, de terra molhada, diferente do ar esterilizado e gelado do hospital. Rania põe a Maria Alicia no banco de trás do carro, tira o manto com cuidado, dobrando-o como quem guarda uma bandeira, e coloca a fralda. A promessa está paga. O carro liga e entra na avenida movimentada da cidade. No retrovisor, o hospital vai ficando pequeno. A vida continua, agora com um pouco mais de graça e um manto guardado na gaveta de cabeceira.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



