Amigos plantam árvore em homenagem ao pesquisador indígena Mairu Karajá
Em ato na UFT, prima do pesquisador indígena lembra líder que 'sabia viver a vida' e planta semente de jatobá em memória.
Nandyala Waritirre se curva sobre a terra vermelha do campus da Universidade Federal do Tocantins, em Palmas. Nas mãos, ela sustenta as raízes delicadas de uma muda de jatobá. Com cuidado, puxa o solo úmido para cobrir as raízes, como quem cobre um amigo com um cobertor na hora da sesta.
É um rito de despedida. Uma semana antes, o corpo de Mairu Hakuwi Kuady Karajá — Leovegildo Caldas para o mundo civil — tinha partido para a terra natal, para a aldeia São Domingos, em Luciara, no Mato Grosso. O coração dele parou em Brasília, longe do curso das águas, aos 30 anos. Agora, o que resta da sua presença no espaço acadêmico é esta semente que Nandyala, prima e companheira de caminhada, deposita no chão.
Mairu era um homem de duas margens. Ele falava a língua da diplomacia nas salas de aula de Relações Internacionais, mas carregava no peito o batuque e a sabedoria do povo Iny, os Karajá. Não era um trânsito fácil; poucos conseguem atravessar a ponte entre o acadêmico e o ancestral sem cair, mas ele fazia isso com leveza. "Era uma das pessoas que mais soube viver essa vida", recorda Nandyala, limpando o excesso de terra das mãos. "Gostava de viajar, de experimentar a culinária local, de comer e beber, conversar e fazer amigos."
O professor, o pesquisador, o líder que inspirava tantos era, antes de tudo, um homem que fazia os outros sentirem-se amados. Nandyala fala dele sem o peso dos elogios solenes, mas com a simplicidade de quem relembra a mesa posta. Ele queria abrir caminhos. Não apenas para si, mas para os pais, para a irmã, para a aldeia inteira que vibrava cada vez que ele conquistava um novo diploma ou um novo espaço de fala.
"As pessoas se sentiam amadas e confortáveis ao lado dele", diz ela. A voz dela não quebra; ela segue firme, como o tronco da árvore que está sendo plantada. "Era muito ligado à família. Abrir caminhos para seu povo, o nosso povo, o povo Iny". Essa era a missão que ele carregava, talvez inconscientemente, em cada refeição compartilhada, em cada debate, em cada sorriso largo.
O enterro em Krehawã devolveu o corpo ao Xingu, mas o espírito se fixa agora neste jardim universitário. O jatobá, árvore do cerrado, conhecida pela sua madeira dura e pela sombra generosa, é o símbolo perfeito. Demora a crescer, mas quando cresce, ninguém mais derruba. É a promessa de que a vida de Mairu não foi um relâmpago passageiro, mas uma semente que vai tardar, mas vai brotar.
Nandyala termina o plantio. Ajeita o tutor, palito fino que ampara a muda frágil contra o vento. Pega uma garrafa de água e rega a terra recém-movida. O sol de fim de tarde bate no jardim da UFT, e ali, no meio do concreto, a vida recomeça pequena, verde e silenciosa, prestes a erguer a copa em homenagem ao filho que partiu, mas que deixou a floresta mais viva.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



