Amapá em Campo ocupa calçadas do Zerão com arte e convivência
Projeto transforma espaço público em Macapá com pinturas e esportes, resgatando o encontro de vizinhos na Rua Inspetor Antônio de Oliveira.
Dona Cota, 64 anos, estende o pano de chão em frente à casa número 42 da Rua Inspetor Antônio de Oliveira cedo demais para o costumeiro movimento da Zona Sul. Ela faz isso há décadas, mas hoje tem um motivo diferente: o chão de cimento vai ser palco. O projeto "Amapá em Campo" desembarca no Zerão nesta sexta-feira, e Dona Cota quer garantir que a recepção da turma seja digna.
A Fundação Rede Amazônica traz a estrutura — as barracas, o som, o material de pintura —, mas é a comunidade que empresta a alma. A ideia é simples e antiga como a prática mais genuína da fé: ocupar o espaço público com beleza e convivência. Não é apenas uma programação de lazer para preencher o tempo; é um reencontro de vizinhos que muitas vezes só se cruzam na pressa do ônibus coletivo ou na fila do mercado.
Havia um tempo em que a rua era a extensão da sala de visita. Dona Cota lembra disso com clareza. Com o passar dos anos, o medo foi tomando conta dos portões, e o cinza do asfalto parecia ter desbotado também o humor das pessoas. Hoje, a arte urbana vem resgatar a cor. Pinturas inspiradas na identidade amazônica vão cobrir os muros, transformando a passagem que antes era só corredor de passagem num lugar de contemplação e pertencimento.
O esporte entra como alegria, não como competição. Não é a disputa fria do cronômetro ou do placar que interessa aqui; é o jogo de bola que desata a língua, a corrida que faz o sangue circular de novo, o corpo que se estica fora da cadeira de casa. Enquanto as crianças esperam a vez na quadra montada na rua, os adultos observam as pinceladas nos muros e conversam sobre o preço da farinha. É uma forma de cidadania que se pratica sem discursos, apenas com a presença.
"Tinta nova no muro parece que limpa o pensamento da gente", diz Dona Cota, ajustando o cabelo grisalho no coque simples com as costas da mão. Ela conta que o filho, que hoje tem trinta e poucos anos e mora no centro, cresceu jogando bola nesta mesma calçada, quando ela ainda era de terra. Ver o movimento voltar, agora organizado e cheio de propósito, a faz manter a porta de casa aberta a manhã inteira.
O projeto vai tocar em temas como preservação ambiental e valorização dos territórios, mas a mensagem que passa mesmo, ressoando entre as casas, é a do encontro. Na Amazônia, onde as distâncias são gigantescas, a proximidade do vizinho é um bem precioso que precisa ser cultivado como uma planta rara.
"Quando a gente se encontra, a gente se cuida", ela diz, oferecendo um copo d'água ao jovem que passa montando o som da caixa amplificada. É um gesto pequeno, mas que diz muito sobre o que aquela manhã significa.
A tarde cai devagar sobre o Zerão. As latas de tinta vazias se amontoam na calçada, o som da bola diminui, e o que fica é o burburinho da conversa que se estende para dentro das casas. Dona Cota recolhe o pano de chão, sacode a poeira e o guarda, mas deixa a porta da sala aberta. A rua já não é mais a mesma, e ela sabe que é para melhor.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



