Confeiteira cria bolo 'Menino Ney' para lucrar na Copa em Rio Branco
Leidiane Matos vendeu 180 fatias do doce temático em uma hora e prepara novidade para edição no Lago do Amor.
Leidiane Matos, 31 anos, acende a luz do lustre da cozinha enquanto a madrugada ainda cobre o bairro Bosste em Rio Branco. O primeiro movimento não é buscar o café, mas sim equilibrar a tigela de vidro sobre a balança digital. O silêncio da casa é quebrado apenas pelo barulho seco do leite em pó batendo contra o fundo do recipiente. Ela respira fundo, ajusta o cabelo preso num coque frouxo, e começa a misturar a massa que, nos próximos dias, vai se transformar na festa de muitas pessoas que ela talvez nunca veja novamente.
Há um ofício sagrado em transformar a torcida coletiva em alimento que cabe na mão. Leidiane entende isso com a precisão de quem maneja o saco de confeitar há tempos. O bolo "Menino Ney" não é apenas um doce vendido por vinte e cinco reais; é uma resposta criativa ao calor da cidade e à febre que toma conta das conversas nos ônibus e nas filas do mercado. A massa branca, que promete ser leve, recebe o toque cremoso da avelã e o reconfortante sabor de leite em pó. É uma combinação que remete à infância, mas que agora veste a camisa amarela para o maior evento do futebol.
Na última edição do Festival de Fatias, o cenário foi de uma correria que tirou o fôlego. Leidiane lembra que as fatias sumiram da bancada em menos de sessenta minutos. Foram cento e oitenta pedaços de bolo indo para mãos ávidas, de famílias inteiras que passavam pelo estande, de crianças que balançavam a bandeira pequena enquanto lambiam o creme. A alegria de ver o trabalho render, de perceber que a criatividade colocou comida na mesa e sorrisos nos rostos, é o que faz ela repetir a dose. É o ciclo que se fecha: o esforço da cozinha virando alegria na praça.
Agora, os preparativos são redobrados para o Lago do Amor, onde a terceira edição do festival promete reunir a cidade à beira d'água. Leidiane planeja levar duzentas e cinquenta fatias. É um desafio maior, que exige tempo e paciência. A cozinha fica colorida com os potes de corante comestível, ajeitando o verde e o amarelo com um cuidado que parece quase reverente, para não manchar o branco imaculado do creme. No topo, a imagem do jogador, recortada e colocada com esmero, é a assinatura final, o selo de um tempo presente.
"Vendi em uma hora as 180 fatias. Minha intenção nesta terceira edição é colocar umas 250 fatias e torcer para que esgotem de novo", diz ela, limpando um resto de massa da ponta do dedo com o pano de chão. O fogo está baixo, o tempo passa devagar ali dentro, medido pelo bater das pás na batedeira, enquanto lá fora a cidade esquenta e o sol começa a despontar sobre o Acre.
Quando o bolo está pronto, montado e parado na bancada esperando o transporte, parece uma escultura temporária de um momento que o Brasil vive junto. Leidiane tira o avental, dá uma última olhada na decoração e sorri, cansada mas realizada. Lá fora, o dia amanhece cheio de promessas e de buzinas, e a cidade inteira parece estar se arrumando, ou para gritar um gol na TV, ou para saborear um pedaço da criação da confeiteira do Bosste.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



