Calçadão do Mercado Velho volta a apresentar erosão em Rio Branco após obras
Obra de R$ 748 mil não evitou novas fissuras em pilares e calçada; comerciantes temem nova interdição no local.
Seu Raimundo Nonato, comerciante de 58 anos, ajusta o boné suado e aponta o dedo caloso para o chão. São 10h da manhã de uma sexta-feira (29) e o sol já castiga as costas de quem trabalha no Calçadão do Mercado Velho, no centro de Rio Branco. O movimento, que deveria ser intenso nesse horário, é tímido. O motivo da preocupação dele está ali, visível a olho nu: uma rachadura fina, mas profunda, cortando o pilar de concreto que foi recém-reformado.
“O negócio tá rachando de novo, e dessa vez foi rápido”, resume Raimundo, que trabalha no local há vinte anos. Ele não é o único a notar. Imagens feitas por comerciantes e veiculadas pela Rede Amazônica Acre mostram que a erosão, aquela mesma que obrigou o Governo do Estado a interditar quase 300 metros da área em julho de 2024, voltou a se manifestar. Os pilares novos, que deveriam segurar o terreno, já apresentam sinais de desgaste.
O problema não é pequeno. O Calçadão do Mercado Velho é uma das principais vias de acesso pedestre da região central, ligando a área comercial antiga à Passarela Joaquim Macedo. Quando as rachaduras apareceram pela primeira vez, o medo era de desabamento sobre as lojas e sobre o próprio igarapé que passa por baixo. Agora, o fantasma da interdição retorna com força total para os 80 comerciantes que dependem do fluxo daquele ponto.
A recuperação da área custou aos cofres estaduais R$ 748.303,13. A informação é da Secretaria de Habitação e Urbanismo (Sehurb), responsável pela obra. O dinheiro era para garantir a segurança da estrutura e impedir que o processo erosivo, causado pela subida das águas do rio Acre e pela instabilidade do solo, destruísse o calçamento. Do jeito que as fissuras aparecem, o investimento durou menos do que a última estiagem.
Dona Francisca Alves, 45 anos, dona de uma lanchonete na esquina da Rua Floriano Peixoto, revira os olhos ao lembrar do prejuízo do fechamento anterior. “Ficamos quase um ano com a cerca amarela na frente da porta. O cliente via aquilo, achava que era perigo e não entrava. Agora que o povo voltou a andar, veja só a surpresa”, reclama, mostrando uma foto no celular do buraco que se forma na base do pilar número 12. Ela diz que, desde a última chuva forte, o som de terra caindo no igarapé voltou a incomodar.
A degradação atinge diretamente o fluxo de pessoas que usam a passarela para cruzar para o Segundo Distrito. O pedreiro Silvio Lima, 32 anos, usa o local todos os dias para ir ao trabalho. Ele diz que, nos últimos dias, prefere desviar pela rua, mesmo com o trânsito intenso de carros da Avenida Getúlio Vargas. “É perigoso caminhar embaixo de pilar que racha, e mais perigoso ainda passar na rua com esse motorista de Rio Branco. Mas entre a queda de concreto e atropelamento, eu fico com o risco que eu vejo”, diz.
A situação chama a atenção não apenas pela recidiva do problema, mas pelo silêncio oficial. A reportagem procurou a Sehurb para saber qual é a técnica da nova falha, se houve vício na obra anterior e qual o cronograma de conserto. Até o fechamento desta matéria, a pasta não respondeu. O que resta aos moradores é a observação no dia a dia e o medo de que a próxima chuva forte leve tudo de novo.
O histórico da região é marcado pela disputa de espaço com as águas. As enchentes, que em 2024 atingiram níveis alarmantes, comprometem a fundação de diversas edificações na beira do igarapé. No entanto, para quem paga imposto e precisa trabalhar, a explicação técnica é pouco consoladora diante da repetição do dano em tão pouco tempo. O Ministério Público do Acre (MP-AC) já apura irregularidades nas obras do Mercado Velho e cobra informações sobre a segurança dos comerciantes.
Enquanto a Sehurb não se pronuncia e a fiscalização não chega, o cuidado é redobrado. Denúncias sobre riscos estruturais em vias públicas do Acre podem ser registradas na Ouvidoria Geral do Estado pelo número 0800 064 2026 ou pelo aplicativo Ouvidoria Acre. É importante registrar com foto e localização exata para que a fiscalização vá até o local antes que o acidente aconteça.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



