Caminhonete é retirada do Rio Acre após vazante em Rio Branco
Veículo estava submerso desde abril e foi retirado nesta quarta-feira por equipe conjunta em Rio Branco; proprietário sobreviveu ao acidente.
Coronel Cláudio Falcão, coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, ajustou o capacete e olhou para o buraco de lama que se formava no leito do Rio Acre. Eram poucos minutos depois das 9 horas desta quarta-feira (3) e a água finalmente havia baixado o suficiente. Lá estava ela, uma caminhonete branca encalhada no lodo, exatamente onde havia desaparecido na noite de 26 de abril. A operação para tirar o veículo dali mobilizou uma retroescavadeira, homens da Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros, transformando a manhã da orla em um espetáculo de engenharia e paciência.
A caminhonete não estava sozinha. Ela veio acompanhada de uma tonelada de galhos, plásticos e o cheiro característico de rio baixando. A equipe da prefeitura precisou limpar uma área na margem para a retroescavadeira pisar sem atolar. O braço hidráulico desceu, engatou o chicote de aço e puxou. Na primeira tentativa, o carro não se mexeu. O peso da água dentro da cabine e a sucção do lodo seguravam a peça como se fosse uma âncora gigante.
Faltou força. Os operadores ajustaram o ângulo do guincho e tentaram de novo. Desta vez, com a lama soltando um som estranho de "glup", a caminhonete se desgrudou do fundo. Ela saiu arrastada, batendo nas pedras da margem, até encostar na grama seca da beira da estrada. Por fora, o estranho era o estado de conservação: a lataria estava inteira, sem amassados profundos, apenas coberta por uma crosta escura de sedimentos.
Um militar do Corpo de Bombeiros se aproximou e tentou abrir a porta do passageiro. Não conseguiu. A porta estava travada pelo volume de água que invadiu o interior. O vidro, submerso há tanto tempo, opacou, mas ainda dava para ver o banco do carona alagado até a altura do encosto de cabeça. "A água entra e não sai até a gente furar o fundo. É física pura", explicou um dos bombeiros, limpando as botas no gramado.
A história deste resgate começa há mais de um mês. Naquele dia 26 de abril, o proprietário do veículo, um homem que não teve o nome divulgado, perdeu o controle na curva de acesso à orla. O carro deslizou, bateu na rampa de concreto e caiu no rio. Por sorte e rápido raciocínio, ele quebrou o vidro da porta com o cotovelo antes que o veículo afundasse de vez. Conseguiu sair nadando e foi socorrido por transeuntes com apenas ferimentos leves no rosto.
O coronel Falcão, que acompanhou toda a operação de resgate, explicou por que demorou tanto para tirar o carro. "A gente não coloca mergulhador no rio cheio por causa de um carro. O risco para a equipe é muito alto em águas turvas e com correnteza. O protocolo da Defesa Civil é monitorar e aguardar a vazante para o resgate mecanizado", detalhou o coronel. A vazante do Rio Acre, que chega a baixar mais de 12 metros na cota máxima, expôs o leito e facilitou o acesso das máquinas.
O resgate atraiu dezenas de pessoas que faziam caminhada na orla. O som da máquina diesel e o balanço da lama quebraram a rotina da manhã. Moradores pararam para tirar fotos e comentar sobre o "carro fantasma". É uma cena que se repete todo ano no ciclo das águas de Rio Branco: o rio baixa e devolve o que escondeu. Em outras ocasiões, já saíram motos, barcos e até geladeiras do fundo.
Após ser retirada, a caminhonete foi levada para o pátio da Defesa Civil, onde vai passar por avaliação. O próximo passo é contactar o proprietário para que ele cuide da remoção do veículo. A polícia científica deve ser acionada para verificar se há alguma irregularidade, mas as primeiras impressões apontam para um acidente comum, sem suspeita de crime.
O episódio serve de alerta. A Defesa Civil reforça que as margens do Rio Acre, mesmo na vazante, oferecem riscos. O lodo é escorregadio e desmorona facilmente, podendo arrastar quem estiver muito próximo da beira. Para quem precisa de socorro ou avista algo suspeito no leito, o canal oficial é o telefone 193 do Corpo de Bombeiros ou o 156 da Guarda Municipal. O rio dá, o rio tira, e às vezes devolve — mas é melhor ficar longe da beira quando ele decide mostrar o fundo.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



