Chega a 18 o número de municípios em emergência pela cheia no Amazonas
Defesa Civil do Estado aponta 186 mil pessoas afetadas; Barreirinha e Jutaí são os mais recentes a decretarem situação crítica.
Dona Francisca da Costa, 58 anos, olha para o caixote de farinha de mandioca que sobrou na sala. Ela mora à beira do Rio Andirá, em Barreirinha, e a subida das águas transformou a varanda em cais. "Aqui a gente vive com a água, mas esse ano ela subiu mais rápido", conta ela, enquanto ajusta a roupa de cama que pendurou no varal improvisado na calha.
Barreirinha é um dos dois novos municípios que entraram na lista de situação de emergência no Amazonas nesta quarta-feira (3). O outro é Jutaí, no médio Solimões. Com a atualização, o número total de cidades em estado crítico chega a 18. O dado é do balanço divulgado pela Defesa Civil do Estado.
O problema não é localizado. Ao todo, mais de 186 mil pessoas já sentiram o efeito das inundações em diferentes regiões do Amazonas. A chuva constante acima da média e o enchimento dos leitos dos principais afluentes forçaram prefeitos a decretarem emergência para liberar recursos e comprar mantimentos.
Em Barreirinha, a situação piora porque a cidade é banhada por dois rios: o Paraná do Ramos e o Andirá. O nível da água chegou a cobrir o cais do porto principal. "Para trazer gás e remédio, agora o barco tem que parar longe e descer em um bote", explica o comerciante Raimundo Nonato, 45 anos, que tem um mercado próximo à orla. Ele diz que o estoque de arroz já acabou duas vezes na última semana.
Jutaí, com cerca de 18 mil habitantes, também enfrenta dificuldades de logística. A cidade fica às margens do rio Jutaí, um afluente do Solimões. A água invadiu ruas do bairro de São Sebastião e obrigou o deslocamento de famílias para a casa de parentes ou abrigos públicos. A prefeitura montou um galpão na escola estadual para receber quem perdeu o teto.
O levantamento da Defesa Civil divide o estado em cenários. Além das 18 cidades em emergência — onde já há danos significativos e risco à vida —, outras 23 estão em alerta. É o caso de Manacapuru, Iranduba e Careiro da Várzea, na região metropolitana de Manaus. Mais 21 municípios estão em atenção, o primeiro nível de monitoramento. Não há, no momento, nenhuma cidade amazonense em situação de normalidade.
A lista de emergência inclui grandes áreas do Sul e do Alto Solimões. Nomes como Boca do Acre, Lábrea, Eirunepé, Carauari, Itamarati, Ipixuna, Juruá, Tonantins, Santo Antônio do Içá, Tabatinga, Benjamin Constant, Atalaia do Norte, Guajará, Tapauá e agora Barreirinha e Jutaí compõem o mapa da cheia.
A Defesa Civil informou que as equipes técnicas estão monitorando os níveis dos rios 24 horas por dia. O governo do estado já enviou o primeiro lote de cestas básicas e colchonetes hidráulicos para as cidades mais críticas. No entanto, o acesso fluvial ainda é o gargalo. Em algumas localidades, as lanchas da Defesa Civil levam até três dias para chegar de Manaus.
De volta a Barreirinha, Dona Francisca aponta para a marca que a água deixou no muro do quintal no ano passado. "Passou um palmo dessa marca agora", diz. Ela espera que a água baixe antes de estragar a plantação de macaxeira que ficou para trás no sítio, às margens do igarapé.
Moradores de áreas alagáveis precisam registrar a situação para receber auxílio. Em Barreirinha, a Defesa Civil Municipal funciona no prédio da Prefeitura, na Rua Floriano Peixoto. Em nível estadual, o pedido de socorro pode ser feito pelo telefone da Defesa Civil do Amazonas, o número 199, que funciona 24 horas.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



