Cesta básica em Manaus dispara 4,68% em junho e pressiona orçamento familiar
Levantamento do Procon aponta preço médio de R$ 281,46; disparo da cebola e divergência de preços entre bairros impactam o trabalhador.
A alimentação em Manaus encareceu em um ritmo dez vezes superior ao teto das metas de inflação neste início de junho: a cesta básica teve alta nominal de 4,68%, pulando de R$ 268,89 para R$ 281,46. O dado, coletado nos dias 1º e 2 de junho pelo Procon Manaus em dez supermercados da capital, revela uma pressão de custos sobre o trabalhador que desafia a desaceleração da inflação nacional observada no Centro-Sul.
Para dimensionar o impacto: enquanto a projeção do mercado para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de junho gira em torno de 0,15% a 0,25%, o preço dos alimentos em Manaus subiu quase 5% em poucas semanas. É um clássico da economia amazônica, onde a dependência do transporte fluvial e a logística de distribuição amplificam choques de oferta. O levantamento considerou 39 itens, seguindo os parâmetros do Decreto Federal nº 11.936/2024, que padroniza a pesquisa de preços no país.
O vilão da vez é a cebola, cujo preço disparou 20,52% na comparação mensal. O item, que compõe a base da culinária regional, sofreu com questões climáticas e entressafra, encarecendo o preparo de refeições em casa. O mamão puxou a alta das frutas. Em contrapartida, houve alívio pontual nos preços do macarrão espaguete, que recuou 12,60%, e do açúcar cristal, com queda de 6,71%. Mesmo com esses ajustes para baixo, o efeito cesta — média dos itens — foi negativo.
A geografia dos preços também ajuda a explicar o bolso do manauara. A pesquisa apontou uma disparidade de R$ 65,07 entre o estabelecimento mais barato e o mais caro. O menor valor (R$ 244,39) foi encontrado em um supermercado da avenida Max Teixeira, na Cidade Nova (zona Norte). Já o mais salgado (R$ 309,46) ficou na avenida Djalma Batista, no bairro Flores (zona Centro-Sul). Essa diferença de 26% no preço final do mesmo conjunto de produtos revela o peso do aluguel comercial e do custo de localização no varejo de luxo, um custo que acaba sendo repassado ao consumidor final.
“A alta da cesta em Manaus é estrutural e conjuntural. Temos o custo de chegar aqui, que é o frete, e agora um choque específico em hortifrutigranjeiros”, explica o economista Mauro Thury, do Departamento de Economia da UFAM. Ele ressalta que, embora a inflação de serviços esteja controlada, a de alimentos in natura permanece volátil no Norte, exigindo do consumidor uma gestão rigorosa da compra doméstica.
Para o trabalhador que ganha o piso da categoria ou cerca de um salário mínimo, desembolsar R$ 281,46 apenas com alimentos básicos compromete quase 20% da renda bruta. O próximo indicador a ser monitorado é a Pesquisa Nacional da Cesta Básica do Dieese, que deve trazer a comparação com outras capitais da região e revelar se o isolamento logístico de Manaus amplificou o custo de vida em relação a Belém e Porto Velho. O Procon deve atualizar os dados na próxima quinzena.
Renato Lobo
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



