MIDR entrega R$ 60 milhões em máquinas para produção rural no Acre
Primeira etapa do programa inclui 324 equipamentos; investimento total de R$ 200 milhões visa reduzir custo logístico no interior.
O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) injetou R$ 60 milhões em capital fixo para o Acre na forma de 324 máquinas e equipamentos, um movimento tático para reduzir o déficit de infraestrutura que historicamente onera a produção agropecuária no estado. O aporte, realizado nesta sexta-feira (5) em Rio Branco, é a ponta de lança do "Programa Inova Acre", que prevê uma mobilização total de recursos da ordem de R$ 200 milhões para aquisição de mais de 2 mil itens.
Para colocar o número em perspectiva: R$ 60 milhões representam aproximadamente 0,8% do PIB acreano estimado para 2025, segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Embora a cifra pareça modesta quando comparada aos pacotes de investimento em logística do Centro-Sul — onde apenas uma duplicação de rodovia pode custar bilhões —, na realidade da Amazônia, o impacto marginal da mecanização é altíssimo. No Acre, o custo do frete interno chega a ser 40% superior à média nacional devido à precariedade das vicinais, um gargalo que derruba a margem de lucro do produtor rural.
Os equipamentos entregues, que incluem motoniveladoras, retroescavadeiras, escavadeiras hidráulicas e tratores de esteira, entram como "bens de capital" na contabilidade municipal e estadual. Do ponto de vista macroeconômico, a posse destes ativos permite uma manutenção constante das estradas de terra que conectam os polos produtivos aos centros de escoamento, como Rio Branco e Cruzeiro do Sul. Com estradas transitáveis o ano todo, o custo variável do transporte cai, e o preço recebido pelo produtor sobe — um efeito direto na competitividade da pecuária de corte e da agricultura familiar, responsáveis pela pauta de exportação do estado.
No entanto, a análise econômica do investimento exige olhar para a capacidade de manutenção desses ativos. A literatura econômica regional aponta um histórico de "elefantes brancos" na Amazônia: máquinas que, por falta de peças de reposição ou orçamento para diesel e operadores qualificados, pararam após o primeiro ano. "A transferência de capital é bem-vinda, mas o xis da questão é a despesa corrente que ela gera", analisa Mauro Thury, economista do Departamento de Economia da UFAM. "Se o município não tem caixa para manter a retroescavadeira, ela vira sucata em dois anos".
Outro ponto de atenção é a calibragem da demanda. O programa inclui microtratores voltados à agricultura familiar, o que ataca uma base de produtores que historicamente tem baixo acesso a crédito rural. Contudo, para que o R$ 200 milhão prometido se transforme em crescimento efetivo do PIB agropecuário, a logística de distribuição precisa evitar a concentração de máquinas apenas na capital, garantindo que o interior — onde está a massa produtiva — seja atendido.
O ministro Waldez Góes informou, em nota oficial, que a próxima etapa de entregas deve ocorrer ainda no segundo semestre, focada em equipamentos para serviços públicos básicos, como saúde e saneamento. O teste de eficácia do programa, contudo, virá apenas na próxima safra: se o custo do frete do boi gordo e da banana cair nos indicadores regionais, a conta fechará. Até lá, o Acre conta com novos ativos no balanço patrimonial, mas o desafio de gestão recém começa.
Renato Lobo
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



