Chuva e maré alta alagam ruas do Pedreira e paralisam transporte em Belém
Moradores da Rua São João convivem com lama dentro de casa; Defesa Civil monitora o nível dos rios na capital paraense.
Dona Maria da Conceição, 58 anos, tira o chinelo na porta de casa e entra na sala descalça, pisando em uma lâmina de água misturada com lama que cobre o piso de cerâmica. Ela mora na Rua São João, no bairro do Pedreira, uma das áreas mais afetadas pela cheia combinada de chuva forte e maré alta que atingiu Belém na manhã desta sexta-feira, 29. "A gente levanta a cama, levanta o sofá, mas a água sempre encontra um jeito de entrar. A gente vive em cima de um tabuleiro de xadrez, mexendo móvel todo dia", conta Maria, enquanto recolhe a roupa que secava no varal e já estava molhada novamente.
O problema não é novo, mas a intensidade de ontem pegou de surpresa até os moradores mais antigos da região. A chuva, que começou perto das 5h, somada ao pico da maré cheia, deixou a Travessa São Benedito e a Rua da Feira intransitáveis para carros de passeio por mais de quatro horas. O ponto de ônibus mais próximo, na Avenida Generalíssimo Deodoro, virou uma ilha. "O aluno não chega na escola, o trabalhador não chega no serviço. O ônibus 102 passa, mas não para porque o motorista diz que risca a lataria. A gente fica esperando a água baixar na calçada", reclama Raimundo Nonato, o Seu Buda, dono da mercearia no canto da Rua São João com a Travessa São Benedito.
Segundo a Defesa Civil do Pará, o nível do rio Guamá chegou a 3,80 metros na manhã de hoje, superando a cota de alerta. O órgão monitora 25 pontos críticos na capital e emitiu alerta de atenção para as comunidades ribeirinhas do entorno da baía do Guajará. Além do Pedreira, os bairros do Condor, Marco e a Docas também registraram alagamentos nas vias principais, causando congestionamentos de até 3 km na saída para a BR-316 no horário de pico.
A Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Obras (Semob), informou que equipes da Companhia de Limpeza Urbana (Clurb) estiveram na região na quarta e quinta-feira para limpeza de bueiros e galerias pluviais antes da previsão de chuva. Em nota, a assessoria da Semob disse que "a aluvião de ontem foi_exceptional e superou a capacidade de drenagem rápida do sistema", mas garantiu que vistorias seguem sendo feitas para identificar entupimentos causados por lixo descartado irregularmente pela população. "Gente joga tudo na rua: plástico, garrafa, sofá velho. Isso desce pro bueiro e trava. A limpeza da cidade começa dentro de cada casa", reforça Seu Buda, enquanto varre a água da calçada para dentro da rua, num esforço fútil de drenagem.
A previsão do Instituto de Meteorologia do Pará (Imetop) para o fim de semana é de estabilidade das chuvas, com céu nublado e pancadas isoladas. Isso deve permitir que as águas baixem até o final da tarde de sábado, aliviando a rotina de quem precisou tirar os móveis da sala novamente. Enquanto isso, moradores seguem o ritmo da maré. "Amanhã a água desce, a gente limpa a lama, bota cloro e espera a próxima maré grande. É a vida daqui", resume Dona Maria, já preparando o balde para começar a faxina.
Reclamações sobre alagamentos e solicitações de limpeza de bueiros podem ser feitas pelo telefone 156, ou diretamente no aplicativo Belém 156. Em caso de emergência, como desabamentos ou pessoas encurraladas pela água, a Defesa Civil deve ser acionada pelo número 199.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.


