Chuva paralisa trechos de Belém e UBS do Bengui registra falta de remédios
Edição desta quarta-feira mostra o impacto do temporal no trânsito da capital e filas em postos de saúde da periferia por falta de medicamentos básicos.
Dona Francisca Costa, 58 anos, tira o chinelo de dedo para atravessar a lama que invadiu a calçada da Avenida Almirante Barroso, no bairro do Marco, em Belém. Eram 14h30 desta quarta-feira (17), e a água da chuva que caiu sobre a capital desde o amanhecer ainda não tinha descido, transformando o ponto de ônibus em uma ilha.
"Eu tive que subir no muro do vizinho para não entrar na água suja. O ônibus 404 passou cheio, e o próximo só daqui a 40 minutos", conta Francisca, enquanto tenta enxugar a barra da saia com um guardanaco.
O temporal da tarde complicou a rotina de milhares de belenenses que voltavam do trabalho ou da escola. O trecho entre o Mercado Ver-o-Peso e a estação da Docas ficou interditado por quase duas horas devido a uma árvore caída, gerando uma fila de 3 quilômetros na Avenida Castilhos França. Segundo a Companhia de Trânsito do Pará (CTrans), equipes de apoio foram acionadas às 13h45, mas o tráfego só normalizou por volta das 16h.
No Sistema Integrado de Transporte (SIT), três linhas que cruzam a região central — 115, 208 e 004 — sofreram desvios de rota. "O motorista avisou que não ia passar na Brigadeiro Protásio. A gente desceu no meio da chuva e teve que andar até o Senado", reclama o estudante Lucas Monteiro, 19 anos, que mora no bairro da Condor. A CTrans informou, por nota, que os desvios foram necessários por segurança e que o cronograma regular seria retomado após a limpeza das vias.
Mas os desafios do dia a dia na cidade não terminaram quando a chuva parou. A edição desta quarta do JL2 também acompanhou a reclamação de moradores do bairro do Bengui, na periferia de Belém, que enfrentam uma fila imatável na Unidade Básica de Saúde (UBS) local.
Dona Benedita de Souza, 68 anos, chegou à unidade às 5h30 da manhã. O cardápio dela era simples: um receituário de insulina e um remédio para pressão. Às 11h, ela ainda estava sentada no banco de plástico do corredor, número da senha 45 na mão. "Cheguei cedo porque a médica só vem três vezes por semana. Hoje tem médico, mas não tem o remédio na farmácia", desabafa.
Segundo funcionários da unidade que preferiram não se identificar, a falta de remédios para hipertensão e diabetes é recorrente há pelo menos dois meses. "A gente fica constrangido em dizer para o paciente que ele tem que procurar a farmácia popular na Batista Campos, que fica a 40 minutos de ônibus daqui", relata uma agente de saúde.
A Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) foi procurada e informou, por meio da assessoria, que o reabastecimento dos estoques da UBS Bengui estava previsto para esta quinta-feira (18) e que a unidade foi contemplada com 100% dos medicamentos básicos pedidos no último pedido de compra. A secretaria pediu que usuários usem o canal do Disque-Saúde (156) para denunciar ausências de medicamentos e garantir o monitoramento em tempo real.
Enquanto o caminhão da Sesma não chega, dona Benedita diz que vai tentar voltar amanhã. "Deus vai me ajudar. Se eu não tomar o remédio, minha pressão sobe e eu desmaio. O que a gente pode fazer? Só esperar e rezar", diz ela, guardando o cartão do SUS na bolsa e se levantando devagar, doendo das costas depois de cinco horas sentada.
Quem precisar denunciar problemas de trânsito ou falta de medicamentos na rede pública em Belém pode utilizar a Ouvidoria Municipal pelo telefone 156 ou pelo aplicativo Belém 156, disponível para Android e iOS.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

