Chuvas interrompem escoamento de soja e destroçam roças em Roraima
Enchentes em Bonfim afetam logística da soja na RR-207 e destroem plantações de mandioca de comunidades indígenas, elevando custos de frete.
O ciclo produtivo do norte de Roraima sofreu interrupção total nesta semana, com cooperativas de Bonfim estimando um prejuízo inicial de R$ 2 milhões apenas no segmento de agricultura familiar, além de um aumento de 20% nos custos logísticos para o escoamento de soja e gado devido ao bloqueio da rodovia RR-207. As fortes chuvas que transformaram o lavrado roraimense em um alagado interromperam o fluxo de renda de comunidades inteiras e levantaram um alerta vermelho sobre a infraestrutura viária do estado.
Para colocar o impacto em perspectiva: embora Roraima contribua com uma fração pequena do PIB agropecuário nacional — cerca de 0,4%, segundo a Conab — o estado tem uma dependência estrutural dessas rodovias vicinais que não se vê no Mato Grosso ou no Paraná. Enquanto o Centro-Sul conta com malhas ferroviárias e hidroviárias redundantes, o produtor de Bonfim depende quase exclusivamente da RR-207. Quando a estrada para, a economia local estagna. O custo do frete, que já representa cerca de 15% do valor final da commodity em Roraima, salta para quase 20% com os desvios necessários ou a paralisação total.
A depreciação econômica atinge dois perfis distintos. O primeiro é a agricultura familiar de base indígena, que opera na margem de subsistência. Na comunidade Marupá, a perda da roça de mandioca representa um choque de liquidez imediato e um risco à segurança alimentar. "A nossa roça fica igual açude. Lá dentro só dá pra ver o mar", relatou o agricultor Terêncio Salomão. Em termos econômicos, isso significa a retirada de toneladas de farinha de mandioca do mercado informal de Boa Vista e Pacaraima, pressionando o preço de um item essencial da cesta básica regional.
O segundo perfil atingido é o agronegócio de escala. Produtores de soja que aguardavam a janela de colheita viram o produto estocado a céu aberto, sujeito à deterioração, e pecuaristas que precisam escoar gado vivo para frigoríficos em Manaus ficaram retidos. O escoamento não é apenas uma questão de venda, mas de fluxo de caixa: sem a rodagem do caminhão, não há entrada de capital para cobrir custos operacionais como diesel e adubo para o próximo ciclo.
Historicamente, a RR-207 é apontada como uma das vias mais críticas para o desenvolvimento do Lavrado. Projetos de pavimentação constam nos planos plurianuais do governo estadual há décadas, mas a execução física oscila conforme o ciclo de recursos. A meteorologia adversa deste ano, no entanto, expôs a fragilidade de uma economia que cresce a taxas de dois dígitos ao ano no campo, mas que ancora sua logística em leito natural.
Técnicos da Federação da Agricultura e Pecuária de Roraima (Faerr) têm alertado que, sem um investimento robusto em drenagem e pavimentação asfáltica, o custo da insegurança logística pode superar os ganhos de produtividade. A chuva, que deveria ser um insumo gratuito da natureza, transforma-se em um passivo oneroso quando a infraestrutura não acompanha a fronteira agrícola.
Enquanto o serviço de meteorologia não aponta uma trégua nos índices pluviométricos para os próximos dez dias, o cenário é de retração. A expectativa dos produtores é de que, mesmo com a baixa das águas, o tempo necessário para secagem das estradas e recuperação das pontes de madeira empurre o calendário econômico local em pelo menos duas semanas, atrasando o giro de capital essencial para o segundo semestre.
Renato Lobo
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



