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Chuvas isolam comunidades e suspendem aulas para 3,5 mil crianças em Normandia

Prefeitura decretou paralisação em 70 escolas; pontes no Polo Santa Cruz ficaram submersas e sete aldeias indígenas estão isoladas.

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Ananda Rocha
Roraima · AM
29 de mai. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 686 palavras
Ponte de madeira coberta pelas águas barrentas de um rio em Normandia, Roraima, devido às chuvas intensas.
Prefeitura decretou paralisação em 70 escolas; pontes no Polo Santa Cruz ficaram submersas e sete al · Foto: Redação Nortícia

Dona Francisca das Chagas, 38 anos, ouviu o barulho da chuva forte madrugada adentro na comunidade Santa Cruz, em Normandia. Quando amanheceu, o chão de barro não era mais o único problema: a ponte de madeira que liga o Polo Santa Cruz à sede do município tinha sumido debaixo da água barrenta do igarapé. Seus filhos, João, de 9 anos, e Maria, de 7, estavam com a mochila pronta na sala. Ela teve que pedir que guardassem. "Não dá para atravessar hoje, filhos", disse ela. "A escola tá fechada".

A cena se repetiu em pelo menos 70 pontos do município nesta sexta-feira (28). A prefeitura decretou suspensão total das aulas na rede municipal, afetando 3,5 mil estudantes. O motivo não é apenas o temporal, mas o isolamento geográfico provocado pela cheia dos rios. Em Normandia, no Norte de Roraima, ir para a escola depende de travessias que, nestes dias, viraram armadilhas.

O foco da preocupação é o Polo Santa Cruz, que reúne cinco comunidades: Santa Cruz, Jiboia, Macaco, Reforma e Serra Grande. A água subiu cerca de 80 centímetros acima da tábua da ponte principal. Para quem mora ali, a ponte é a artéria. Sem ela, não passa o transporte escolar, não passa o caminhão de água e não passa o professor que mora na cidade.

Na comunidade Macaco, o agricultor João Pedro de Souza, 45 anos, foi até a beira do rio verificar se o nível baixou. Não baixou. "Toda hora cai um toro vindo de cima, batendo nos pilares", relata João, apontando para a correnteza forte. Ele tentou atravessar a pé ontem, mas a água chegou na cintura e a força da corrente o fez recuar. "Se eu caio, ninguém me pega. O prefeito fez certo em cancelar aula. Eu prefiro meu filho sem matéria do que afogado".

Do outro lado, quem tenta chegar também corre risco. O professor Sebastião Costa, 52 anos, leciona na escola da comunidade Reforma. Ele costuma sair da sede de manhã cedo num transporte da prefeitura. Hoje, o motorista dele virou o carro no pátio. "Como eu vou dar aula se eu não chego lá? E como eles chegam aqui?", questiona Sebastião. Ele se preocupa com o calendário letivo. "Já perdemos dias demais este ano por causa da seca, agora é a chuva. O conteúdo empilha".

A decisão partiu do gabinete do prefeito, Dr. Raposo (PP). Ele recebeu o relato técnico da Defesa Civil e viu que a estrutura de travessia estava comprometida. A água rompeu a cabeceira de uma das pontes, deixando o assoalho instável. "Não há condições de funcionamento agora", defendeu o prefeito. "É melhor resolver a situação primeiro e depois retomar as aulas, do que trabalhar com apenas uma parte funcionando enquanto a maioria fica prejudicada".

O problema vai além das escolas do Polo Santa Cruz. A prefeitura informou que sete comunidades indígenas estão isoladas, e o levantamento oficial pode aumentar esse número. O rádio transmission é a única via de comunicação com alguns grupos. O medo agora é que a água continue subindo e chegue às casas, que na maioria das comunidades são construídas de madeira e elevadas, mas não imunes a uma enchente histórica.

A Defesa Civil municipal está de plantão, mas o acesso para vistoria está limitado. Equipes só conseguem chegar aos locais de barco, e mesmo assim, com dificuldade devido aos troncos e à força da correnteza. O armazém da prefeitura já tem cestas básicas separadas, mas a logística de entrega está travada até que a água baixe pelo menos 50 centímetros.

Normandia fica na região do Lavrado, uma área de transição entre a floresta e o savana. O solo plano retém a água. É um ciclo anual, mas moradores antigos dizem que 2026 tem sido mais intenso. As chuvas começaram mais cedo e com mais volume.

Enquanto a água não baixa, o "dever de casa" das famílias é manter as crianças longe da margem. A prefeitura informou que o retorno das aulas depende da vistoria da engenharia nas pontes. Pais e responsáveis devem acompanhar o comunicado oficial nas rádios locais e no site da prefeitura, evitando o uso das travessias submersas.

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◆ Repórter · Nortícia Cidades

Ananda Rocha

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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