Chuvas isolam mais da metade de Uiramutã e transbordam rio em Roraima
Enchente deixa comunidades sem água potável, mata lavouras e impede acesso à pista de pouso em Uiramutã, município indígena de Roraima.
Raimundo Macuxi, 46 anos, agricultor, aponta para a ponte que já não existe na comunidade Água Fria, em Uiramutã. Lá embaixo, o rio Contigo arrasta troncos de árrvore e parte da plantação que ele cultivou no mês passado. O barulho da água é alto, sufocando a conversa na margem.
Em Uiramutã, o município mais indígena do Brasil, a geografia de serras e planaltos virou contra a população nesta quinta-feira (29). As chuvas fortes que atingem Roraima fizeram o rio Contigo, assim como o Maú e o Wailã, transbordarem. Mais da metade dos moradores da cidade está isolada. A prefeitura decretou estado de emergência, mas para quem está do outro lado da lama, o decreto é apenas um pedaço de papel.
O relatório técnico da Defesa Civil, emitido na quarta-feira (28), lista pelo menos três rios e um igarapé fora do leito. A força da correnteza destruiu as acessos à zona rural. O asfalto que ligava as comunidades ao centro urbano virou um rio. O mapa de relevo da região, conhecido pela Serra do Sol e pelos lavrados do Tacutu, facilitou o escoamento, mas o volume foi além da capacidade dos leitos.
"Perdemos a roça de banana e de macaxeira. A água subiu de noite e levou tudo", diz Raimundo, apoiado num cajado. Ele é um dos centenas de moradores que não conseguem chegar ao centro urbano para comprar comida ou buscar ajuda médica. A unidade de saúde local da Água Fria está fechada porque os enfermeiros não conseguem cruzar. Uma criança com febre alta teve que ser carregada em rede por dois quilômetros até um ponto onde o sinal alcançasse o centro.
A situação é crítica, confirmou a prefeitura em nota oficial. A pista de pouso municipal, essencial para receber mantimentos e fazer evacuação médica, está alagada. Apenas aeronaves capazes de pousar na água conseguem alcançar a região. A pista é um lago. A gestão municipal destacou que o risco de deslizamentos nas serras aumenta a cada hora que a chuva persiste.
O isolamento traz outro problema: a falta de água potável. Com a enchente, as redes de abastecimento estão comprometidas, e as cisternas foram contaminadas pela lama. A perda de produtos agrícolas é estimada em toneladas, afetando o sustento de famílias que vivem da agricultura familiar. A safra da segunda quinzena de maio está perdida.
Maria Silva, 32 anos, moradora da comunidade Wailã, conta que as crianças estão fora da escola. "O ônibus escolar parou porque a estrada cedeu. As crianças estão em casa, mas não sabemos quando as aulas voltam. É angústia ver o rio crescendo na porta", relata. Ela diz que estocaram água para três dias, mas se o nível não baixar, vão precisar beber do rio, que carrega lama e detritos.
A prefeitura monitora os níveis do rio Cotingo e de seus afluentes. A história do município, cortado por igarapés, repete o ciclo de cheias, mas moradores dizem que neste ano o volume veio antes e com mais força. A previsão é de mais chuva nas próximas 48 horas, o que mantém a população em alerta.
Quem precisa pedir ajuda ou registrar danos pode entrar em contato com a Defesa Civil Municipal de Uiramutã pelo telefone (95) 99112-0000 ou fazer o registro na sede da prefeitura, aberta das 8h às 14h. A orientação é buscar terrenos elevados e não tentar cruzar as pontes que permanecem em pé. O registro é essencial para o posterior levantamento de prejuízos e pedido de auxílio emergencial.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



