Após 17 anos, Circo Broadway retorna a Boa Vista com aroma de serragem e globo da morte
Com 50 profissionais entre artistas e equipe, o circo ocupa o Shopping Cauamé com números clássicos e tradicionalismo itinerante.
O cheiro de serragem fina, aquele aroma que gruda no fundo da garganta e mistura-se ao de algodão-doce, ainda é o cartão-postal inconfundível de qualquer chegada de circo. Antes mesmo do arrebentar das luzes ou do motor roncante do globo da morte ecoar no concreto do estacionamento do shopping Cauamé, é essa combinação de poeira de picadeiro e açúcar que anuncia à cidade de Boa Vista que é hora de parar. O Circo Broadway retorna a Roraima após 17 anos de silêncio, trazendo na lona branca e azul uma caravana de quase 50 profissionais — entre 30 artistas e a equipe técnica que sustenta a mágica — para reeditar um espetáculo que a capital não via desde 2008.
Robert Ramos, proprietário do espetáculo, ancorou a lona na zona Norte de Boa Vista vindo direto de uma temporada bem-sucedida em Manaus. Ele sabe que o público roraimense não quer apenas ver, quer sentir. "Viemos de uma temporada maravilhosa e chegamos com uma equipe de quase 50 pessoas", diz ele, mas os números frios não traduzem o suor do trapezista. O programa é um clássico do circo tradicional brasileiro, mas exigido com a precisão de quem vive na estrada há décadas. Há o perigo vertiginoso do globo da morte, onde motos desafiam a gravidade em uma esfera de malha de aço; há a disciplina dos malabaristas, cujas bolas e claves descrevem arcos perfeitos no ar; há o equilíbrio tênue dos equilibristas e o humor sem palavras dos palhaços, universais em qualquer língua, mas sempre com um sotaque local.
Não é apenas diversão de domingo; é a manutenção viva de uma tradição itinerante que cruza o Brasil e aporta no Norte para mostrar que o circo não morreu. Enquanto em Belém o Círio move multidões nas ruas de casario antigo, aqui o evento ocorre no entorno de um shopping center, um espaço moderno que serve de cenário para uma arte antiga. A montagem no bairro Cauamé transforma o vazio do estacionamento em uma vila temporária, um reduto de lona, cordas e chapas metálicas que funciona como uma cidade dentro da cidade por alguns dias.
A arquitetura do espetáculo segue o ritmo de quem vive na estrada. A estreia acontece nesta quinta-feira (4), às 20h30, quando os refletores se acendem pela primeira vez. Depois disso, a rotina é absorvida pela cidade: segundas, terças e quintas-feiras, as portas se abrem às 20h, convidando quem sai do trabalho para uma pausa no real. Já aos finais de semana — sextas-feiras, sábados, domingos e feriados — o circo dobra a jornada, com sessões às 18h e às 20h30. É um fôlego constante para manter o público roraimense encantado, do idoso que vêmemórias de 2008 à criança que vai entrar na lona pela primeira vez.
Para quem vive no Norte, o circo é também uma lição de geografia e resistência. Atravessar a fronteira do Amazonas para Roraima não é apenas uma questão de quilometragem na BR-174, mas de logística de lonas e geradores. O ilusionismo prometido no programa não está apenas nos truques do mágico, mas na capacidade da equipe de erguer um mundo de fantasia em poucas horas e desmontá-lo logo em seguida, levando a magia para a próxima cidade.
Os ingressos já estão disponíveis nas plataformas digitais, uma facilidade moderna para uma arte que um dia dependeu do vendedor de gritos na porta da cidade. O encontro está marcado para o estacionamento do Shopping Cauamé, na zona Norte. Chegue antes do horário, ouça o zunido da motocicreta se aquecendo e compre o ingresso. A sessão das 20h30 desta quinta é o retorno oficial, mas qualquer noite de lona é uma boa noite para esquecer o concreto lá fora.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



