Edital Mãe Dulce investe R$ 150 mil em 30 projetos de cultura afro no Amapá
Iniciativa da Fundação Marabaixo apoia regularização de terreiros, oficinas e manutenção de espaços comunitários em todo o estado.
O som grave do atabaque ecoando no terreiro de Chica da Silva, no Curiaú, carrega mais que ritmo: carrega a memória de gerações que resistiram na beira do rio. É batida de vida, que agora encontra ressonância na política pública de Amapá. A Fundação Marabaixo anunciou, na última semana, os contemplados da segunda edição do Edital Mãe Dulce. R$ 150 mil que vão secar o suor de rostos cansados e afinar as cordas de projetos que, sem esse auxílio, corriam o risco de virar silêncio.
São 30 projetos espalhados pelo estado, tocando de tudo: a compra de instrumentos para o tambor não desafinar, a regularização fundiária da casa de santo que preza o solo sagrado, e oficinas que ensinam aos jovens que o batuque não é folia apenas, é oração e identidade. O edital, batizado em homenagem a Dulce Alves Souza — matriarca do Marabaixo que levou a cultura amapaense para além das fronteiras — cresce em volume e propósito. Se na primeira edição foi o pontapé inicial, agora a estrada está pavimentada para quem precisa pisar firme com a cultura.
Para manter um terreiro de pé, não basta fé. É telha para a chuva não bater no santo, é documento para a prefeitura não cobrar taxa de terreno invadido, é dinheiro para o dendê e a farinha. O eixo de regularização, por exemplo, é o que tira o peso das costas dos babalorixás e iyalaxés que lidam com a burocracia enquanto cuidam dos filhos de santo. Ter a terra em nome da comunidade é o ato político mais urgente para garantir que a casa não seja vendida ou derrubada daqui a vinte anos. É um alento saber que o estado reconhece, através da Fundação Marabaixo, que aquele quintal onde se roda o tambor é patrimônio imaterial que precisa de tijolos e papelada para sobreviver.
No campo da cultura, a ação é direta e tátil. Quando o agogô estilhaça ou o xequerê desmancha, a roda quebra. O dinheiro deste edital garante que o som não acabe, permitindo a aquisição de instrumentos novos feitos por mestres da luthieria local, que sabem a medida exata do couro para o tambor cantar baixo ou agudo. Há também as rodas de conversa, espaços onde a oralidade — a tradição de contar história na varanda à luz de lampião — vira ferramenta de combate ao preconceito. Amares as feridas da escravidão não é apenas ato de academia, é ato de quintal, de terreiro, de rua. É no tecido do diálogo que a juventude aprende que ser negro em Amapá é herança de força, não estigma.
Amapá tem uma identidade negra que muitas vezes é resumida ao Marabaixo do Curiaú, mas se espessa no Batuque, no Ticumbi, nos pequenos terreiros de fundo de quintal em Macapá e Santana. Este edital olha para essa diversidade sem binóculos. A seleção levou em conta o alcance comunitário e o fortalecimento da identidade afro-amapaense. Não é sobre o turismo que quer ver o "exótico" ou o "folclore" bonito para foto de Instagram. É sobre o povo que vive a sua fé, que acorda cedo para ralar o açaí ou preparar o caruru para a festa de Ogum. É sobre a ladainha que só interrompe o silêncio da madrugada.
Com a divulgação da lista, sai o ar-condicionado das salas de reunião e entra o calor humano da execução. É o momento de comprar o material, de chamar a comunidade, de promover o evento. É a vida pulsando onde antes havia apenas a espera por um parecer. Os contemplados agora têm nas mãos a responsabilidade e o prazer de fazer girar a engrenagem da cultura local. É um ciclo virtuoso: o dinheiro vira instrumento, o instrumento vira música, a música vira memória, e a memória fortalece a identidade.
O próximo passo é acompanhar de perto como esses recursos transformam o dia a dia das comunidades — do terreno regularizado ao tambor novo que ronca forte no próximo sábado à noite. Quem quiser sentir o pulso dessa transformação, basta estar atento aos terreiros e aos centros culturais de Macapá e Santana nos próximos meses. A cultura de Amapá agradece, e a ancestralidade sorri, vendo seus filhos lutando para manter a chama acesa.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



