Em Rondônia, a Copa do Mundo vira festa de rua, telão e som ao vivo
Torcedores reúnem-se em Porto Velho, no Mercado Cultural e shoppings, para ver jogos da Seleção e shows de artistas locais.
O cheiro de tinta spray ainda paira no ar úmido de Porto Velho, grudado nas mãos de quem acabou de terminar o mural. Na esquina da Sete de Setembro, o grafiteiro — um rapaz do bairro Triângulo, conhecido pelo traço rápido — dá as últimas camadas de verde-bandeira e amarelo-ouro na parede. Ele não está apenas pintando; está ritualizando a chegada da Copa. Resgata a tradição antiga de vestir a cidade para o futebol, transformando o cinza do concreto em campo de celebração. É o sinal de que a bola vai rolar, e Rondônia vai estar pronta.
A Copa do Mundo começa oficialmente nesta quinta-feira (11), mas o termômetro da torcida já subiu há dias. Aqui no Norte, futebol não se assiste escondido na penumbra da sala. É evento de rua, de encontro, de suor e som. O calor de 35 graus não intimida a camisa 10; pelo contrário, serve de combustível para a festa. A Seleção Brasileira entra em campo no sábado (13), às 18h, e o estado inteiro parece prender a respiração, preparando o grito que vai ecoar do rio Madeira até a fronteira com a Bolívia.
O ponto nevrálgico dessa energia em Porto Velho será, sem dúvida, o Mercado Cultural. O espaço, reaberto e revitalizado, tem se tornado a ágora da cidade. Não é apenas um telão gigante montado no pátio; é o palco onde a cultura local encontra o fenômeno global. A organização entendeu que o jogo é só o prelúdio. Após o apito final, o chão do mercado deve tremer com o ritmo de Negô e Beto Cezar. Lourô Rodrigues e Naty Cavalcante sobem ao palco para garantir que a alegria da vitória — ou o alento da derrota — tenha trilha sonora autêntica, misturando o forró elétrico com o calor da noite rondoniense.
Para quem prefere o clima climatizado, mas não abre mão da torcida, os shoppings da capital oferecem uma curadoria própria. O Porto Velho Shopping preparou o seu "Quintal do Madeira", um espaço que, apesar do nome bucólico, é moderno e funciona como uma praça pública coberta. A programação começa cedo, na quinta, às 14h, com a abertura do mundial. As famílias chegam com cadeiras, mantas e lanches, ocupando cada centímetro da Praça de Alimentação. O IG Shopping segue a mesma toada, com telões espalhados para que ninguém perca um lance, nem o carrinho de pipoca.
O interessante dessa Copa em Rondônia é como ela revela a identidade mestiça do povo. Na multidão que se aglomera nos telões, ouvem-se sotaques do Nordeste, do Sul e do Norte, todos misturados no mesmo "vai Brasil". É a síntese de um estado feito por migrantes, que encontram no futebol o idioma comum. Nos bares do Caladão e nos pontos de encontro da periferia, o comentarista da TV ganha coro de críticos e analistas de boteco.
No interior, a história não é diferente. Prefeituras de cidades como Ji-Paraná e Ariquemes prepararam suas praças centrais. O som da vuvuzela, que parecia ter morrido em 2014, ressurge nos confins da Amazônia. O telão virou o novo cinema das cidades pequenas, atraindo multidões que assistem aos jogos em pé, comendo um espetinho de carne bovina do próprio estado, regado a refrigerante gelado.
Faltam poucos dias para o apito inicial. O grafiteiro terminou sua parede. As bandas ensaiaram os repertórios. Os shoppings calibraram as telas. Resta à torcida vestir a camisa, pegar o dinheiro para o chope e ocupar as ruas. A Copa é a festa, mas o povo é o espetáculo.
Se você está em Porto Velho, não fique em casa. No Mercado Cultural, o show começa logo após o jogo, no sábado. No Porto Velho Shopping, a transmissão da abertura é nesta quinta, às 14h, no Quintal do Madeira. O Brasil precisa de você, mas você também precisa da torcida.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



