Manaus ganha arena oficial para torneios de Pokémon e Magic
Nova casa no Parque Dez abriga campeonatos oficiais e reúne comunidade de TCGs na capital.
O plástico das cartas protetoras faz um ruído seco e agudo, quase como grilos, quando são embaralhados. Nas mesas da Mimiso Arena, no Parque Dez, esse som é a trilha sonora da tarde. Lá, o cheiro de café quente se mistura ao cheiro de papel novo e feltro. É um barulho e um aroma que, para os jogadores de Manaus, significam batalha. Não é uma briga de rua, mas uma disputa intelectual que agora tem casa própria na Rua Beco São Pedro, 162. A Mimiso Arena Card Games inaugurou recentemente como o primeiro espaço da capital com chancela oficial da Pokémon Company, transformando o hobby de garagem em competição formal.
A arena não é apenas uma loja onde se compra booster packs — aqueles pacotinhos misteriosos que prometem a carta rara. É um lugar de encontro. O bairro do Parque Dez, já conhecido pela boemia e pela movimentação cultural de Manaus, ganhou um ponto que une gerações: meninos de dez anos de calça jeans curta sentam ao lado de advogados e engenheiros de meia-idade para duelar com dragões e feitiços. A luz baixa e o ar condicionado potente criam um clima de refúgio contra o calor úmido de Manaus, onde a única temperatura que sobe é a do jogo.
Linton Júnior, juiz internacional de Pokémon e Magic, é uma das referências desse espaço. Ele caminha entre as mesas com as mãos nas costas, observando não só as regras, mas a dinâmica dos jogadores. Para ele, a existência de um lugar oficial resolve um problema antigo da comunidade amazônica: a dispersão. "É um local pensado para valorizar tanto o colecionismo quanto os jogos", diz Linton. Ele veste camiseta preta estampada e tem o olhar cansado de quem já viu milhares de partidas, mas os olhos brilham ao ver uma nova arena devidamente equipada. As mesas largas evitam que os baralhos se misturem, e o espaço permite que dezenas de jogos aconteçam ao mesmo tempo sem o caos dos salões alugados por horas.
Há uma estética peculiar nos jogos de cartas, ou Trading Card Games (TCGs). São miniaturas de arte em papel. O 'foiling' — aquele acabamento holográfico que pisca conforme a luz bate — cria flashes de cor que contrastam com o verde escuro das mesas de jogo. Na Mimiso, é possível ver o arquivo histórico dos jogos: o antigo e pesado Magic: The Gathering, com suas cartas brancas de borda quadrada, dividindo espaço com o colorido e frenético Pokémon ou o Yu-Gi-Oh!, cheio de monstros mecânicos e armaduras. Cada carta tem uma textura, uma gramatura, um tamanho. O jogador experiente conhece tudo isso apenas pelo tato, sem olhar.
Ter reconhecimento oficial da Pokémon Company significa que Manaus agora figura no mapa mundial do jogo. O que era uma atividade periférica, dependente da boa vontade de lojistas de brinquedos, agora tem regras, pontuação e caminhos para carreira. O jogador de Manaus pode acumular pontos aqui para valer em campeonatos em São Paulo ou nos Estados Unidos. Isso profissionaliza a paixão. É parecido com o que acontece com o futebol amador que ganha um campo de grama sintética e iluminação: o jogo muda de intensidade, o treino fica mais sério.
A comunidade de card games no Norte tem uma resiliência particular. Enquanto no Sul e Sudeste as lojas pululam em shoppings centers, na Amazônia os jogadores sempre precisaram criar suas próprias redes. Fóruns de internet, grupos de WhatsApp e encontros em praças de alimentação foram o berço dessa arena. Agora, o "ovo de colombo" virou tijolo e cimento. A arena abriga não apenas torneios, mas momentos de troca. Vê-se alguém encostar em outro para perguntar "Quanto dá pela sua Charizard Vmax?" e iniciar uma negociação que pode durar o resto da tarde, regada a água de coco e sanduíche.
A programação é fixa, com horários para jogos casuais e datas marcadas para os campeonatos oficiais. A Mimiso Arena Card Games promete ser um ponto de cultura lúdica na cidade, onde o cérebro é o músculo mais exercitado. O próximo grande evento já está no calendário. A arena fica na Rua Beco São Pedro, 162, Parque Dez. A entrada é franca para os curiosos que só querem assistir — e aprender as regras de um universo que se joga com um baralho na mão.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



