Corpo de indígena é encontrado no Rio Purus após quatro dias de buscas no Acre
Nanes Kaxinawá caiu de embarcação no domingo; vizinhos encontraram o corpo na quinta-feira na Aldeia Novo Marinho.
Jeneci Francisco Pereira Kaxinawá e alguns vizinhos regressavam para a Aldeia Novo Marinho na tarde desta quinta-feira (4). Eles navegavam pelas águas barrentas do Rio Purus, no interior de Santa Rosa do Purus, a mais de 900 quilômetros da capital Rio Branco. O grupo procurava Nanes Batista Domingos Kaxinawá, tio de Jeneci, desaparecido desde o domingo (31). Foi no meio do leito do rio, já no caminho de volta, que encontraram o corpo do indígena de 32 anos boiando.
Nanes caiu de uma embarcação dois dias antes do Corpo de Bombeiros iniciar as buscas oficiais. Entre o domingo e a terça-feira (2), a angústia na aldeia foi a única companheira dos familiares. A logística de transporte fluvial na região do Alto Purus torna o deslocamento de equipes de resgate lento e complexo. Enquanto o pedido de socorro subia o rio, a família e os amigos organizaram suas próprias canoas. Foi esse esforço comunitário, não o suporte técnico inicial, que localizou a vítima.
A cena marcou a memória dos moradores que acompanhavam o retorno da comitiva de busca. Jeneci descreve o momento de perplexidade e dor ao avistar o corpo do tio. "Os vizinhos não acreditaram e ficaram todos muito assustados com a cena", conta. O impacto da notícia não se restringiu a quem estava na margem ou nas canoas. A esposa e a filha de Nanes aguardavam em terra. O grito de desespero das mulheres atravessou a distância. "Quando a filha e a esposa souberam, gritaram, de longe ouvimos e depois soubemos que elas desmaiaram", relata o sobrinho.
O calor intenso da floresta e o tempo que o corpo ficou na água aceleraram a necessidade do sepultamento. Não houve condições de aguardar por exames periciais mais demorados ou transporte para a cidade. A comunidade decidiu realizar o enterro na manhã desta sexta-feira (5), no próprio território. "O cheiro estava muito forte e já optamos por sepultar apesar da dor na última despedida", declara Jeneci.
O Rio Purus é a principal via de acesso para Santa Rosa do Purus e as aldeias vizinhas. Moradores relatam que acidentes com embarcações, muitas vezes precárias, são frequentes. A falta de coletes salva-vidas e o estado de conservação das canoas são fatores de risco constante no cotidiano local. No entanto, a distância de centros de atendimento avançado faz com que a prevenção seja a única defesa real contra tragédias dessa natureza.
A morte de Nanes Kaxinawá deixa um vazio na estrutura familiar da aldeia, mas também expõe a vulnerabilidade das populações ribeirinhas e indígenas do Acre. A dependência do transporte fluvial, sem uma frota de emergência permanente no interior, coloca a segurança em segundo plano diante da geografia. O caso segue registrado como óbito por afogamento, após queda acidental.
Em casos de desaparecimento em rios do interior, a recomendação é iniciar a busca imediata por vizinhos antes de aguardar o socorro oficial, devido ao tempo de deslocamento. O Corpo de Bombeiros atende emergências pelo número 193, mas em áreas remotas como o Alto Purus, o alerta via rádio comunitário é essencial.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.


