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Nortícia BoaCura no Acre

Cozinheira opera bócio mergulhante no Acre após sobreviver a acidente em Xapuri

Após descoberta acidental da doença, Marilene Azevedo passou por 8 horas de cirurgia na Fundhacre e volta a respirar livre.

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Padre Bruno Sena
Acre · AM
10 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 552 palavras
Mulher toca o pescoço delicadamente em frente à janela de uma casa simples.
Após descoberta acidental da doença, Marilene Azevedo passou por 8 horas de cirurgia na Fundhacre e · Foto: Redação Nortícia

Marilene Azevedo Ferreira, 49 anos, ajusta o avental de tecido na cintura e pisa no chão de tijolinhos da cozinha de casa em Xapuri. O movimento é lento, calculado, como quem aprendeu recentemente a valorizar cada passo. Ela leva a mão ao pescoço, toca levemente a base onde a cicatriz ainda está roxa, e sorri. É um sorriso pequeno, de quem carregou uma pedra no peito por anos e, de repente, viu o peso sumir.

Cozinheira da vida inteira, ela estava acostumada com o calor do fogo e o vapor das panelas, mas não com aquele cansaço que não passava. A falta de ar era uma visita constante, um aperto que ela atribuía ao corre-corre do dia a dia, à idade chegando, ao trabalho pesado. Não sabia que o que sentia não era cansaço, mas a compressão de uma glândula que crescia para dentro, invadindo o espaço onde o pulmão devia se expandir.

O destino, ou o acaso, escolheu uma data específica para trazer a verdade à tona: julho de 2022. Marilene estava dentro de uma van quando ela se chocou violentamente com um caminhão na BR-316. O estrondo foi assustador, o susto, enorme. Sobreviveu, graças a Deus — como ela diz, baixinho — e foi levada às pressas para o pronto-socorro em Rio Branco. Os médicos correram atrás de fraturas, de hemorragias, de feridas abertas. O raio-X, porém, revelou outra coisa, uma sombra estranha no pulmão.

"Na época do acidente, fui para Rio Branco direto ao pronto-socorro. Fizeram um raio-X e os médicos viram uma massa no pulmão. Eles disseram que era uma massa, mas não sabiam o que era. Aí me encaminharam para o doutor Newton Torres e começaram as investigações", conta Marilene, lembrando daquela sensação de medo misturada com curiosidade.

O diagnóstico veio e trouxe um nome difícil: bócio mergulhente volumoso. Uma condição rara onde a tireoide, essa glândula em formato de borboleta que guardamos no pescoço, decide crescer desordenadamente e descer para o tórax, sufocando tudo pelo caminho. O acidente, que poderia ter sido uma tragédia, foi o aviso que salvou a vida dela. Sem aquela batida, quem sabe por quanto tempo ela ainda viveria com aquela coisa crescendo dentro do peito?

A cirurgia, porém, não foi imediata. Foram mais de três anos de espera, de idas e vindas ao hospital, de exames e mais exames, até o dia 2 de junho, terça-feira, quando a maré virou. Na Fundação Hospitalar Governador Flaviano Melo (Fundhacre), uma equipe de cinco cirurgiões se preparou. O procedimento durou oito horas. Oito horas em que a família rezava no corredor, em que o tempo parecia não passar.

Ela acordou sem a massa, sem o peso, sem o aperto. Recebeu alta na segunda-feira, 8, e voltou para casa com a sensação de quem renasce. Diz que está feliz, curada. Mas é mais que isso: é a gratidão de quem olha para trás e vê que as coisas se encaixam, mesmo quando parecem quebrar.

Lá em Xapuri, o sol da tarde entra pela janela da cozinha. Marilene pega o tempero para o jantar, cheira o cheiro verde do coentro e respira fundo. O ar entra limpo, livre, ocupando todo o espaço que agora é só dela. Ela mexe a panela, o ruído da colher batendo no ferro é o som de vida voltando ao normal.

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◆ Repórter · Nortícia Boa

Padre Bruno Sena

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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