Creman abre processos éticos após erros no atendimento que matou Benício, de 6 anos
Sindicância do Creman aponta irregularidades na dosagem de adrenalina aplicada em Manaus; médicos respondem agora.
A morte de Benício Xavier de Freitas, aos 6 anos, expôs o medo que mora no peito de quem busca socorro nas emergências de Manaus. Na última terça-feira, a notícia que a família esperava chegou através da defesa: o Conselho Regional de Medicina do Amazonas (Creman) concluiu a sindicância e abriu processos ético-profissionais contra os profissionais envolvidos no atendimento. O menino não resistiu em novembro passado após uma série de complicações no hospital.
A investigação interna do Creman encontrou rachaduras no atendimento. O relatório aponta indícios de irregularidades que vão além de um infortúnio. O erro central apurado foi a medicação. Benício recebeu adrenalina, mas a via de aplicação e a dosagem não batiam com o que o protocolo médico indica para o quadro clínico dele. Foi um erro técnico que disparou um efeito devastador. Logo após a injeção, o corpo do menino respondeu com múltiplas paradas cardíacas. A sequência de eventos levou ao óbito, num momento em que a família esperava por cura.
O Creman, porém, segue o rito burocrático frio. Em resposta à imprensa, o conselho alegou sigilo processual. Afirmou que está legalmente impedido de divulgar nomes, documentos ou qualquer manifestação sobre o mérito dos fatos. É o muro institucional que o cidadão comum enfrenta quando quer saber quem respondeu pelo erro. A transparência, nesse caso, é bloqueada pela regra do segredo de justiça administrativo, deixando a família e a população com a versão parcial da defesa.
O que acontece daqui para frente? Os médicos investigados agora entram na fase de instrução processual. Eles serão citados para apresentar defesa escrita e oral perante a Comissão de Ética do Creman. Terão prazos legais estritos para justificar suas condutas. O processo analisa se houve infração ao Código de Ética Médica. Se condenados, as penas variam de uma simples advertência em arquivo até a cassação do registro profissional, o que impediria o médico de trabalhar no Brasil. É uma ladeira longa que pode durar meses ou anos.
Para a sociedade de Manaus, o caso reverbera nas filas dos postos de saúde e nas salas de espera dos pronto-socorros. A confiança no jaleco branco se constrói com responsabilidade. A fiscalização médica é fundamental para garantir que o ato de curar não se transforme em risco. O Creman, sediado no Centro de Manaus, tem o dever estatutário de zelar pela técnica e pela ética. A abertura desses processos sinaliza que o olhar do órgão se voltou para este caso específico, mas a lentidão da justiça administrativa é uma dor constante para quem espera.
O erro médico não é um destino, muitas vezes é uma falha de sistema ou de atenção. O cidadão precisa saber o nome do médico que o atende, o número do CRM e tem direito ao prontuário completo. Quem passa por situações de negligência, imperícia ou imprudência não deve calar. A denúncia é o instrumento de cidadania.
O Conselho Regional de Medicina do Amazonas recebe reclamações de pacientes. Em Manaus, a sede fica na Rua Recife, 1957, no Centro. O horário de atendimento ao público é das 8h às 14h, de segunda a sexta-feira. A ouvidoria também aceita denúncias pela internet, através do formulário no site oficial do Creman-AM, ou pelo telefone (92) 2123-8300. Lá, a pessoa deve relatar o fato com o maior número de detalhes possíveis: data, local, nome do profissional e ocorrido. É o caminho para que erros como o que vitimou Benício sejam apurados e punidos.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



