EcoAmazônia abre hoje em Manaus com foco em cadeia da bioeconomia
Evento gratuito no Centro de Convenções reúne painéis sobre bionegócios e manejo sustentável até sexta-feira.
A EcoAmazônia 2026 abre as portas nesta quarta-feira (3) no Centro de Convenções do Amazonas Vasco Vasques 2, com uma aposta explícita na diversificação da matriz econômica local: três dias de feira e palestras focadas na bioeconomia e nos bionegócios, setores que, apesar de ainda representarem uma fração pequena do PIB estadual perto do Polo Industrial de Manaus (PIM), crescem a taxas duas vezes superiores à média nacional. A entrada é franca, o que elimina uma barreira inicial para a circulação de informações, mas o desafio econômico real é transformar essa troca de experiências em contratos de venda e escala produtiva.
Para colocar em escala, enquanto o PIM movimenta anualmente cerca de R$ 200 bilhões em faturamento bruto, a cadeia da sociobiodiversidade no Amazonas ainda opera na casa dos bilhões, com alta dependência de commodities como o açaí e a castanha. O evento busca justamente ampliar esse leque, discutindo desde o manejo florestal até a biotecnologia aplicada a cosméticos e fármacos. A programação, que segue até sexta-feira (5), inclui 30 oficinas e painéis que não exigem inscrição prévia, uma estratégia para captar um público interessado que não está necessariamente inserido no mercado formal.
Do ponto de vista de capital humano, a oferta de certificados de horas complementares é um atrativo para estudantes e técnicos, mas sinaliza um problema crônico do setor: a falta de mão de obra especializada para processar a biodiversidade. Diferente da indústria eletroeletrônica, que importa know-how pronto, a bioeconomia exige pesquisa local de longo prazo. Painéis sobre mudanças climáticas e monitoramento ambiental tentam endereçar essa lacuna, alinhando a academia com a necessidade de mercado de adaptação às novas normas de compliance (conformidade legal).
O foco em "gerar renda de forma sustentável", como destaca a organização em nota por meio da Secretaria de Comunicação (Secom), precisa ser traduzido em balanço financeiro. Para o pequeno produtor ou para o empreendedor de startup verde que ocupa os estandes do Vasco Vasques, sustentabilidade é inviável sem margem de lucro. O evento funciona, portanto, como um termômetro para saber se o consumidor final — seja ele de Manaus, do Sudeste ou do exterior — está disposto a pagar o prêmio (o preço extra) pelos produtos que conservam a floresta em pé.
Comparado a feiras de maior porte no Centro-Sul, como a BIO Brasil Convention em São Paulo, a EcoAmazônia ainda tem caráter mais formativo do que transacional. Contudo, a localização em Manaus é estratégica: aproxima quem detém a matéria-prima (o extrativista/coletor) de quem detém a tecnologia de processamento e a logística de exportação. A discussão sobre gestão ambiental e crédito verde, prevista na grade de palestras, é crucial para destravar essa ponte, uma vez que o acesso a linhas de financiamento específicas, como o FNO (Fundo Constitucional de Financiamento do Norte), ainda é burocrático para pequenos atores.
O encerramento na sexta-feira deve trazer os primeiros sinais se o interesse em "produtos de bioeconomia" saiu da retórica de assessoria e chegou ao pedido de compra. Enquanto o PIM debate a renovação dos incentivos fiscais em Brasília, a bioeconomia tenta provar que pode sustentar-se com inovação e valor agregado, sem depender exclusivamente de renúncia fiscal. A expectativa é que o evento gere R$ 2 milhões em negócios durante os três dias, um valor modesto para a economia amazonense, mas relevante para dezenas de microempreendedores que veem na floresta a única fábrica possível.
A próxima divulgação de dados sobre o setor de extrativismo e pesca no Amazonas pelo IBGE deve sair em agosto, o que permitirá aferir se eventos como este impactaram positivamente a renda média das comunidades envolvidas na cadeia.
Renato Lobo
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.


