Com brilho e suor, começa Festival Folclórico do Amazonas com categorias Bronze e Prata
68ª edição chega ao CCPA nesta sexta-feira (5); movimento envolve costureiros, coreógrafos e grupos de bairros da capital.
O brilho do lantejoula pesa no ombro da passista, mas o sorriso é mais leve. No Centro Cultural dos Povos da Amazônia, na Zona Sul de Manaus, o cheiro de tinta acrílica se mistura ao suor do ensaio final e ao zumbido dos rádios de pick-up estacionados. É sexta-feira, 5 de junho, e a 68ª edição do Festival Folclórico do Amazonas começa. Não com o estrondo das categorias de elite, mas com o batijo e a garra das categorias Bronze e Prata. Aqui não tem turista procurando "o exótico" para postar no Instagram; tem vizinho aplaudindo vizinho, tem mãe torcendo para o filho não tropeçar no passo da quadrilha.
É o chão onde o folclore manauara pega fogo antes de virar espetáculo. Durante 16 dias, até o dia 20 de junho, o palco do CCPA recebe o que Manaus tem de mais visceral: quadrilhas tradicionais arrastando a saia no chão, quadrilhas cômicas tirando risada da plateia com a sátira fina do cotidiano, bois-bumbás berreiros contando a morte e a ressurreição do personagem, e cirandas que parecem não querer terminar nunca. São manifestações que nascem nos fundos de quintal das comunidades e chegam à luz dos refletores com a cara da periferia.
O ar úmido de Manaus cola o traje na pele, mas ninguém reclama. No palco, a quadrilha "Brilho do Rio", da categoria Prata, treina a "martelada", o som dos pés batendo uníssonos que ecoa até as galeras. É o som da terra firme confirmando que a festa é sagrada. O Festival Folclórico não é apenas uma apresentação; é um documento vivo. Cada coreografia conta uma história de migração, de adaptação, de como o caboclo da cidade reinventa a roça no palco.
Atrás do bambolim, a festa é ainda mais fervorosa. Nas costuras improvisadas de salões de bairro como o da Compensa e do Alvorada, dona Francisca, 54 anos, costureira de ofício e passista de coração, costura a noite inteira. "Esse tecido de cetim tem que aguentar o joelho no chão no momento da vaquejada", ela avisa, enquanto a linha de nylon raspa o dedo. O festival movimenta uma economia invisível. São centenas de profissionais — aderecistas, coreógrafos que estudam o movimento do ribeirinho para transpor à cena, marceneiros que montam cenários que desmontam na semana seguinte. É o gigantismo da arte popular amazônica sustentado por contas de luz atrasadas e muito amor.
Nas lojas de tecido da Manaus Moderna, o cetim colorido e o filó brilho esgotam semanas antes. Nas oficinas de marcenaria, o trabalhador descansa a mão calejada sobre a madeira que será o cenário de um "Caipira" ou de uma "Cigana". É uma economia circular: o dinheiro da bilheteria, por menor que seja, volta para o motorista de táxi que leva o ensaio, para a lanchonete que vende o café reforçado com farinha de tapioca na madrugada.
As cirandas, por exemplo, trazem o balanço calmo dos rios, mas com uma energia que muda quando o sol vai embora. E os bois-bumbás? Aqui eles não têm o orçamento milionário de Parintins, nem a iluminação de laser. Têm sangue, têm voz rouca do cantor que ensaiou a semana inteira vendendo peixe na feira, e têm o couro batendo forte. É a versão crua, pura, sem filtros. O público da arquibancada entende. A cada acerto, ovação. A cada tropeço, grito de incentivo.
O papel pedagógico do festival é inegável. As categorias Bronze e Prata funcionam como a escola da vida cultural. É ali que o jovem aprende a respeitar o mestre, a entender que o ritmo do carimbó não é o do tecnobrega, mas sim o batido do pé na terra. É onde se testa coreografia, se erra a entrada e se aprende a levantar a cabeça. Pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas frequentam os bastidores para catalogar as variações regionais. O que se vê ali é uma antropologia viva em movimento, uma aula que não precisa de sala de aula. Mestres de cultura popular passam o bastão para a juventude que chega com o cabelo tingido e o fone de ouvido no pescoço, mas que respeita o rítmo do zabumba.
A 68ª edição é um alerta para quem acha que a tradição está morrendo. Ela está ali, respirando ofegante, suando, pedindo água e pronto para mais uma volta. As categorias Bronze e Prata são a promessa de que o Ouro de amanhã não vai faltar. A 68ª edição, que vai até o dia 20, é um alerta para quem acha que a tradição está morrendo. Ela está ali, respirando ofegante, suando, pedindo água e pronto para mais uma volta.
O encontro acontece no Centro Cultural dos Povos da Amazônia, na avenida Torquato Tapajós. A programação começa às 19h desta sexta-feira e se estende até o dia 20 de junho. A entrada é popular. Leve água, proteção solar e disposição para bater palma.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



