Homicídios de indígenas mais que dobram no Amazonas
Levantamento do Ipea aponta alta de 102% nos assassinatos de povos originários em um ano, ligada a disputas de terra e crime organizado.
O cenário de segurança no Amazonas para as populações originárias se deteriorou drasticamente nos últimos anos. Entre 2023 e 2024, a violência letal contra indígenas não apenas cresceu, mas mais que dobrou, revelando uma crise humanitária que se espalha pelo interior do estado. É o que aponta o levantamento mais recente do Atlas da Violência, estudo fundamental para entender a dinâmica criminal no Brasil, que traz um alerta vermelho específico para a região Norte. Os dados expõem a fragilidade das políticas de proteção a esses grupos em um momento de intensa expansão das frentes econômicas sobre a floresta, colocando em risco a sobrevivência física e cultural de comunidades inteiras.
Crescimento explosivo
A escalada da violência é quantificada em números que impressionam pela rapidez com que evoluíram. De acordo com o painel do Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os registros de homicídios de indígenas no Amazonas saltaram de 36 casos em 2023 para 73 em 2024. Esse aumento representa um crescimento de 102,7% no período de apenas um ano. Quando olhamos para a taxa de homicídios por grupo de 100 mil habitantes, a subida é ainda mais acentuada e alarmante: o índice passou de 21,4 para 47,8 mortes, uma variação negativa de 123,4%. O relatório utiliza termos fortes para classificar o cenário, apontando explicitamente para o "agravamento da violência contra indígenas no estado".
A geografia da morte
Não se trata de uma violência distribuída aleatoriamente pelo mapa, mas sim de um fenômeno com causas e locais determinados. O estudo indica que os homicídios se concentram geograficamente em áreas definidas como "fronteira econômica". Essas regiões são caracterizadas por intensas disputas territoriais e pela pressão de atividades econômicas que, muitas vezes, avançam de forma predatória sobre terras tradicionalmente ocupadas. A pesquisa classifica esses crimes como uma "violência fortemente territorializada", ou seja, atos que estão intimamente vinculados a contextos de conflito socioambiental. A inserção periférica das comunidades indígenas nessa economia, seja na extração ilegal de madeira, no garimpo ou mesmo no comércio legal desregulado, expõe os indivíduos a riscos extremos, transformando o lar em zona de guerra.
A sombra do crime organizado
Além dos conflitos fundiários e ambientais, o relatório traz um dado alarmante sobre a segurança pública que não pode ser ignorado: a atuação crescente do crime organizado. O levantamento identifica que ao menos três municípios do Amazonas que abrigam terras indígenas estão sob alta vulnerabilidade à ação de quadrilhas e facções criminosas. A proximidade com rotas de tráfico internacional de drogas e armas, a dificuldade de fiscalização estatal em áreas remotas e a abundância de recursos naturais criam um ambiente propício para que grupos criminosos atuem. Esses grupos frequentemente impõem seu domínio territorial pelo medo, cooptando mão de obra local e silenciando lideranças que se opõem aos seus interesses ilegais. A combinação de falta de presença do Estado e poderio bélico das facções cria um quadro de desamparo total para a população indígena.
A situação descrita pelo Atlas da Violência exige uma resposta imediata e estruturante das autoridades. O aumento vertiginoso dos homicídios não é apenas uma estatística fria; é o reflexo de um estado que falha em proteger seus habitantes mais vulneráveis e na garantia de seus territórios constitucionais. Sem políticas públicas específicas de segurança, de regularização fundiária e de apoio às comunidades, a tendência é que a violência continue a crescer. Manaus e o interior clamam por ações que vão além da retórica e que efetivamente garantam o direito à vida dos povos originários, guardiões da floresta e primeiros habitantes da região amazônica.
Com base em g1-am.
Curadoria Nortícia
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
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