ICMBio retira gado ilegal da Terra do Meio em operação no Pará
Em São Félix do Xingu, moradores soltaram rebanho para impedir apreensão em área embargada da Estação Ecológica.
A poeira da estrada Transiriri levanta tonta sob o sol de São Félix do Xingu, no Pará, mas nesta terça-feira (9) a nuvem que subiu da Vila Fumaça não era de caminhão de grão. Era o rebuliço de noventa cabeças de gado soltas na correria, dispersadas pelas trilhas da mata pelos próprios moradores, num último gesto de resistência antes que os agentes do estado chegassem. O som do chifre batendo na porteira e o mugido desorientado marcaram o ritmo da operação "Pasto Nullus", deflagrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) no interior da Estação Ecológica da Terra do Meio, uma região que funciona como o corredor vital entre a floresta em pé e o avanço do arco do desmatamento.
A Terra do Meio não é apenas um nome num mapa de unidades de conservação; é um território de águas que cortam a calha do Xingu e se encontram com o Iriri, protegendo uma fronteira que, se rompida, deixa descoberto o coração da floresta. Ali, onde o gado não deveria pisar, a pecuária ilegal vinha se instalando sorrateira, abrindo clareiras onde antes havia copa fechada. Desde o dia 3 de junho, equipes do ICMBio percorrem essas áreas embargadas para reverter essa lógica: a de que o animal tem valor mais alto que a árvore derrubada.
Na cena da Transiriri, a tática dos moradores foi soltar os animais. Ao verem a fiscalização chegar, abriram as cercas, misturando o rebanho à paisagem para dificultar a apreensão. É um ato desesperado de quem coloca o capital na fuga, mas que também expõe a fragilidade dessa ocupação irregular. O boi solto na mata, sem dono aparente naquele momento, é ainda mais daninho ao solo compactado e à regeneração da floresta do que o boi no curral.
A estratégia do ICMBio, explicada nos relatórios da operação, baseia-se num corte no elo da cadeia produtiva ilícita. Não basta apenas multar o desmatamento; é preciso retirar o lucro que o financia. Ao apreencher o gado de dentro de áreas embargadas, o órgão ataca o motor econômico que mantém o motosserra ligado. Segundo o instituto, a retirada de rebanhos de áreas desmatadas ilegalmente tem se consolidado como uma ferramenta eficiente para interromper o ciclo de degradação em locais já marcados pela embargos ambientais.
A Estação Ecológica da Terra do Meio é uma das peças fundamentais no mosaico de proteção do sudeste paraense. Ela faz a ligação entre Terras Indígenas e outras Unidades de Conservação, garantindo que os animais silvestres — a onça-pintada, a arara-azul, o macaco-barrigudo — tenham corredores por onde circular sem encontrar pasto no meio do caminho. Quando o gado invade esse espaço, ele traz consigo o fogo, para limpar o capim que renasce, e a doença, que pode atingir a fauna local.
A operação conta com apoio de outras instituições federais e estaduais, uma sinalização de que o combate ao desmatamento ilegal na região exige mãos e olhares multiplicados. Enquanto os agentes terminam o patrulhamento na Vila Fumaça, o silêncio volta a se instalar sobre a Transiriri, mas não é o silêncio da paz florestal. É o silêncio tensio de quem sabe que a porta foi aberta, que o gado fugiu, mas que a fiscalização vai voltar, porque a Terra do Meio, ao contrário do pasto aberto, tem dono definido: é o patrimônio público, é o futuro da floresta em pé que resiste ao cerco.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



