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Nortícia AmazôniaOperação Pasto Nullus

ICMBio retira gado ilegal da Terra do Meio em operação no Pará

Em São Félix do Xingu, moradores soltaram rebanho para impedir apreensão em área embargada da Estação Ecológica.

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Bianca Aroucha
Pará · AM
10 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 562 palavras
Gado solto em área de floresta na região de São Félix do Xingu durante operação de fiscalização.
Em São Félix do Xingu, moradores soltaram rebanho para impedir apreensão em área embargada da Estaçã · Foto: Redação Nortícia

A poeira da estrada Transiriri levanta tonta sob o sol de São Félix do Xingu, no Pará, mas nesta terça-feira (9) a nuvem que subiu da Vila Fumaça não era de caminhão de grão. Era o rebuliço de noventa cabeças de gado soltas na correria, dispersadas pelas trilhas da mata pelos próprios moradores, num último gesto de resistência antes que os agentes do estado chegassem. O som do chifre batendo na porteira e o mugido desorientado marcaram o ritmo da operação "Pasto Nullus", deflagrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) no interior da Estação Ecológica da Terra do Meio, uma região que funciona como o corredor vital entre a floresta em pé e o avanço do arco do desmatamento.

A Terra do Meio não é apenas um nome num mapa de unidades de conservação; é um território de águas que cortam a calha do Xingu e se encontram com o Iriri, protegendo uma fronteira que, se rompida, deixa descoberto o coração da floresta. Ali, onde o gado não deveria pisar, a pecuária ilegal vinha se instalando sorrateira, abrindo clareiras onde antes havia copa fechada. Desde o dia 3 de junho, equipes do ICMBio percorrem essas áreas embargadas para reverter essa lógica: a de que o animal tem valor mais alto que a árvore derrubada.

Na cena da Transiriri, a tática dos moradores foi soltar os animais. Ao verem a fiscalização chegar, abriram as cercas, misturando o rebanho à paisagem para dificultar a apreensão. É um ato desesperado de quem coloca o capital na fuga, mas que também expõe a fragilidade dessa ocupação irregular. O boi solto na mata, sem dono aparente naquele momento, é ainda mais daninho ao solo compactado e à regeneração da floresta do que o boi no curral.

A estratégia do ICMBio, explicada nos relatórios da operação, baseia-se num corte no elo da cadeia produtiva ilícita. Não basta apenas multar o desmatamento; é preciso retirar o lucro que o financia. Ao apreencher o gado de dentro de áreas embargadas, o órgão ataca o motor econômico que mantém o motosserra ligado. Segundo o instituto, a retirada de rebanhos de áreas desmatadas ilegalmente tem se consolidado como uma ferramenta eficiente para interromper o ciclo de degradação em locais já marcados pela embargos ambientais.

A Estação Ecológica da Terra do Meio é uma das peças fundamentais no mosaico de proteção do sudeste paraense. Ela faz a ligação entre Terras Indígenas e outras Unidades de Conservação, garantindo que os animais silvestres — a onça-pintada, a arara-azul, o macaco-barrigudo — tenham corredores por onde circular sem encontrar pasto no meio do caminho. Quando o gado invade esse espaço, ele traz consigo o fogo, para limpar o capim que renasce, e a doença, que pode atingir a fauna local.

A operação conta com apoio de outras instituições federais e estaduais, uma sinalização de que o combate ao desmatamento ilegal na região exige mãos e olhares multiplicados. Enquanto os agentes terminam o patrulhamento na Vila Fumaça, o silêncio volta a se instalar sobre a Transiriri, mas não é o silêncio da paz florestal. É o silêncio tensio de quem sabe que a porta foi aberta, que o gado fugiu, mas que a fiscalização vai voltar, porque a Terra do Meio, ao contrário do pasto aberto, tem dono definido: é o patrimônio público, é o futuro da floresta em pé que resiste ao cerco.

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◆ Repórter · Nortícia Amazônia

Bianca Aroucha

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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