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Isabelle e Marciele: o duelo de cunhãs-poranga que trava a respiração no Bumbódromo

As representantes de Garantido e Caprichoso transformam o Item 9 em um diálogo de corpos, mitologia e galochas que ecoa pelo Amazonas.

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Karina Pinheiro
Amazonas · AM
10 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 673 palavras
Cunhã-poranga de boi-bumbá dança com leque de penas iluminado no centro do Bumbódromo.
As representantes de Garantido e Caprichoso transformam o Item 9 em um diálogo de corpos, mitologia · Foto: Redação Nortícia

O som das galochas batendo no concreto do Bumbódromo é o primeiro aviso de que a noite vai virar história. É um estrondo rítmico, trinta mil pés descalços e peles nuas que batem no chão em uníssono enquanto o ar condicionado luta contra o calor de 35 graus que vem do rio. É nesse exato instante de suspense, segundos antes da luz de palco subir, que o duelo mais antigo do boi-bumbá renasce: o confronto das cunhãs-poranga.

Nos últimos anos, esse confronto ganhou rosto, nome e uma coreografia que foge do óbvio. De um lado, o azul vibrante do Garantido tem em Isabelle Nogueira a sua força feminina. Do outro, o vermelho intenso do Caprichoso encontra em Marciele Albuquerque a resistência e a graça. Não são apenas figurantes; são as almas do espetáculo, encarregadas de dar vida ao Item 9, a apresentação mais aguardada das noites de festival.

Isabelle Nogueira tem o jeito de quem domina o palco sem precisar gritar. Na última edição, ao encarnar a lenda indígena Tapyra’yawara, ela não apenas dançou; ela transformou-se. Com movimentos de ombro que lembram o balanço das canoas nas águas do Negro, ela conduziu a torcida garantista para um delírio silencioso antes da explosão de som. A transformação cênica é o seu trunfo: em segundos, o que era uma figura mítica se dissolve em efeitos visuais para revelar a mulher amazônica, ancestral e contemporânea ao mesmo tempo.

Logo em seguida, ou antes, dependendo da ordem da noite, vem Marciele Albuquerque. A cunhã-poranga do Caprichoso chega como uma onda que não se vê vir. Sua performance carrega um peso dramático, uma teatralidade que prende o olhar. Se Isabelle é o impulso, Marciele é o enraizamento. Em suas apresentações recentes, entre alegorias que simulam onças e aves da floresta, ela usa o corpo para contar a história de um povo que sobrevive à seca e à cheia. A precisão de seus gestos, a forma como maneja o leque de penas e o olhar que furam a plateia são a prova de que o boi-bumbá é também teatro de alto nível.

O que faz o duelo entre elas valer a pena não é a competição fria de quem dança melhor, mas a conversa que elas travam através da mitologia. Quando uma evoca a luz e o rio, a outra responde com a floresta e a noite. É uma troca de simbologias profundas que poucos conseguem decifrar de primeira, mas que todos sentem na barriga. Elas recuperam a ancestralidade indígena e a força feminina sem cair no lugar comum do folclore de cartão-postal. É cultura viva, respirando e suando no centro da arena.

Para quem nunca pisou no Bumbódromo, entender a importância da cunhã-poranga é entender que o boi não é apenas o touro de madeira no centro. O boi é a galera nas arquibancadas, é a batida da caixa, e é principalmente essa mulher que sai do nada para roubar a cena. Isabelle e Marciele elevaram o patamar. Elas mostraram que o Item 9 pode ser cinema, pode ser ópera, pode ser o grito de uma região que se reconhece naquela pele pintada de urucum e naquele figurino que pesa quilos, mas parece leve como pena.

A memória dessas noites, embaladas pelo som do tacacá sendo vendido nas galerias e pelo brilho dos smartphones registrando cada giro, é o que mantém a chama acesa durante o ano todo. O Festival de Parintins pode acabar na segunda-feira de manhã, mas o impacto daquelas performances permanece no ar de Manaus e em toda a região, suscitando debates em barcos e varandas sobre quem brilhou mais.

Se você quer sentir essa energia de perto e entender o que é o verdadeiro boi-bumbá para além dos holofotes, é preciso marcar a agenda para o fim de junho. Os ingressos esgotam rápido, e o barco sobe o rio cheio de gente levando gelo e carnes salgadas. O próximo encontro das cunhãs-poranga está marcado para o final do próximo mês, no Bumbódromo de Parintins. Chegue cedo, porque o duelo começa antes da luz acender.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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