Laudo contradiz versão de PMs e afirma que jovem não atirou em Manaus
Exame de criminalística encontrou ausência de resíduo de tiro na vítima de 19 anos, morto em ação da Rocam em 2025.
O Instituto de Criminalística (IC) do Amazonas concluiu pela inexistência de partículas de chumbo nas mãos de João Paulo Maciel dos Santos, de 19 anos, morto durante uma ação policial na Zona Oeste de Manaus, em outubro de 2025. O laudo residuográfico, anexado aos autos do inquérito, contradiz a versão apresentada por militares da Ronda Ostensiva Cândido Mariano (Rocam), que relataram terem reagido a um disparo de arma de fogo.
Segundo o documento pericial, a análise da amostra coletada nas mãos da vítima indicou resultado negativo para a presença de resíduos resultantes de deflagração de munição. "Da efetiva inexistência de partículas de chumbo na amostra suspeita analisada. Neste caso, a conclusão sobre o fato é a de que não houve disparo de arma de fogo", aponta o trecho do relatório técnico. A perícia torna tecnicamente inverossímil a narrativa de que o jovem tenha efetuado tiros contra a guarnição, considerando que a residuografia detecta resíduos por até seis horas após o disparo.
O ocorrido aconteceu no beco Arthur Virgílio, bairro Vila da Prata, Zona Oeste. Os policiais militares envolvidos na abordagem informaram, em boletim de ocorrência e depoimentos preliminares, que teriam sofrido resistência armada, caracterizando um "auto de resistência". No entanto, provas materiais e imagens de câmeras de segurança do local levantam dúvidas sobre a dinâmica do evento. O vídeo, amplamente divulgado nos últimos dias, registra o momento em que João Paulo é levado, com vida e aparentemente sem ferimentos graves, pelos policiais para o interior do beco. Minutos depois, os mesmos militares são vistos saindo do local transportando o corpo da vítima, já enrolado em um pano, até a viatura.
A disparidade entre o laudo forense e o registro policial move o eixo da investigação, conduzida pela Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS). O Ministério Público do Amazonas (MPAM) acompanha o caso com atenção, dada a gravidade das inconsistências apontadas. A hipótese de execução sumária, aventada pela defesa da família e por organizações de direitos humanos, ganha reforço técnico com a nova perícia. Para o direito, o uso letal da força por agentes de Estado só é legitimado em situações de estrita necessidade e exclusivamente diante de agressão iminente ou atual à vida, critérios que o laudo sugere não terem sido preenchidos.
O inquérito visa apurar a responsabilidade penal dos policiais envolvidos. Enquanto não houver denúncia formal do MPAM e recebimento pela Justiça, os militares permanecem na condição de investigados e continuam em atividade, conforme determina a legislação brasileira para crimes militares ou conexos, a menos que haja decretação de prisão preventiva por risco à instrução processual. A defesa dos PMs, procurada pela reportagem para se manifestar sobre o conteúdo do laudo residuográfico e as imagens do circuito interno, não retornou até o fechamento desta matéria.
O caso de João Paulo insere-se em um contexto de monitoramento sobre letalidade policial na capital amazonense. Dados dos anos anteriores apontam Manaus historicamente entre as capitais com maiores taxas de mortes decorrentes de intervenções de agentes do Estado. A classificação do inquérito como "auto de resistência", prática comum no passado, foi alvo de alterações normativas após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) na ADPF 635, que exige investigação independente para todas as mortes cometidas por agentes do Estado.
A próxima etapa processual envolve a manifestação do Ministério Público sobre o laudo e a eventual convocação dos policiais para novos depoimentos ou a conclusão do inquérito para oferecimento de denúncia por homicídio doloso. A perícia técnica, fundamentada em laudos como o de residuografia e necroscopia, é peça chave para o deslinde dessas ocorrências, servindo como contraponto ao relato verbal dos envolvidos.
Diego Câmara
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



