Lhamas apreendidas no AC ficam 20 dias em abrigo à espera de decisão judicial
Rebanho de 43 animais está na zona rural de Porto Acre sob cuidados da ONG Patinha Carente; vacinação depende de liberação da Justiça Federal.
Vanessa Facundes, presidente da ONG Patinha Carente, amarra a bota antes de entrar no curral improvisado na zona rural de Porto Acre. São 6h30, e o som de mastigação de 43 lhamas já domina o silêncio da Estrada de Porto Acre. "Elas reconhecem a gente, já vem na porteira", diz Vanessa, enquanto distribui baldes de ração. Há exatos 20 dias, esses animais são "hóspedes forçados" da instituição, aguardando uma caneta de um juiz federal para saber o destino.
O rebanho vialeiro foi apreendido pela Polícia Rodoviária Federal na BR-364, altura de Rio Branco, no dia 20 de maio. A fiscalização constatou irregularidades na documentação de transporte — uma notificação comum na rodovia, mas que prendeu os animais em um limbo jurídico. Como não há um centro de triagem oficial para grandes animais no estado do Acre, a carga foi encaminhada para a Patinha Carente, que abriu os portões.
A logística mudou drasticamente no sítio. Em três dias, voluntários e fazendeiros vizinhos ergueram um galpão coberto de 200 metros quadrados. "Não dava para deixar no sol, a lã esquenta muito", conta Sebastião Lima, vizinho de propriedade que cedeu a mão de obra na construção. Lhamas são animais dos Andes, mas adaptados ao calor amazônio exigem sombra e água constante. O chão de terra batida foi coberto com maravalha para evitar acúmulo de lama nas chuvas da época.
O custo, porém, sai do bolso da ONG e de doações de última hora. A dieta de uma llama não é barata. A equipe mistura capim triturado (a "capineira" que sobra da região) com xerém de milho e farelo de soja. A conta de ração subiu para cerca de R$ 150 por dia, fora o veterinário voluntário que visita o local a cada três dias. "A gente socorreu, mas o estado precisaria assumir esse custeio enquanto o processo não anda", pondera Vanessa.
O maior impasse não é a ração, mas a saúde pública. A ONG realizou a vermifugação preventiva na primeira semana. Porém, a vacinação contra brucelose e raiva está travada. "São animais que vieram de fora, não sabemos o histórico. Para vacinar, precisamos de uma autorização expressa da Justiça Federal, pois eles são prova material. Se injetarmos algo sem autorização, podemos interferir na perícia", explica.
A decisão está na 2ª Vara Federal do Acre. O Ministério Público Federal (MPF) acompanha o caso, que discute não apenas a infração administrativa do transporte, mas a destinação definitiva dos animais. Se o juiz decretar a perda da carga em favor da União, as lhamas podem ser doadas para instituições ou leiloadas. Se o dono recorrer e ganhar, ele terá que pagar os custos de estadia dos 20 dias para retirar o rebanho.
Enquanto o processo não sair do papel, a rotina no sítio segue o ronco dos animais. Vanessa apaga as luzes do curral às 18h. "Amanhã tem mais ração para misturar", resume. A expectativa da equipe é que a sentença chegue até sexta-feira, antes que os recursos para a manutenção se esgotem completamente.
O caso pode ser acompanhado pelo sistema da Justiça Federal sob o número sigiloso da ação penal. Denúncias sobre maus-tratos ou transporte irregular de animais silvestres ou domésticos no Acre podem ser feitas ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) pelo telefone 0800 61 8080 ou à Polícia Ambiental do Acre.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



