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Nortícia BoaDoce de mãe

Mãe vende doces no Acre para levar filha ao tratamento no Rio

Kerolay Reis faz doces para arrecadar fundos e garantir a viagem da filha Maria Elis à Rede Sarah, no Rio de Janeiro.

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Padre Bruno Sena
Acre · AM
08 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 589 palavras
Mãos de mulher modelando brigadeiros em cozinha simples no Acre.
Kerolay Reis faz doces para arrecadar fundos e garantir a viagem da filha Maria Elis à Rede Sarah, n · Foto: Redação Nortícia

Kerolay Reis, 34 anos, desliga o liquidificador e passa a mão no avental que já manchou de chocolate pela terce vez naquela manhã. A cozinha da casa, no Acre, cheira a leite condensado fervendo e a uma promessa silenciosa que ela faz a si mesma antes de pegar na colher de pau. O som da batida do doce na panela é o relógio da casa agora, marcando o tempo que falta para o dia 27 de julho.

No balcão da sala, dezenas de copinhos descartáveis se alinham como exércitos de barro. Kerolay é personal trainer, mas nestes últimos meses virou confeiteira por necessidade e amor. Não são doces para qualquer festa. Cada brigadeiro, cada beijinho enfeitado com o bolinho de coco, tem um destino específico: transformar-se em passagem aérea, em refeição na rua, em um teto para dormir na cidade grande.

A viagem não é turismo. É uma peregrinação em busca de um milagre médico. A filha dela, Maria Elis, tem apenas dois anos. Nasceu com a encefalopatia crônica não evolutiva, aquele nome duro que os médicos usam para descrever a paralisia cerebral. O corpo de Maria Elis é uma prisão que a mãe tenta todos os dias tornar mais leve. Quando veio a carta da Rede Sarah, de lá do Rio de Janeiro, dizendo que a menina tinha sido aceita para o tratamento, foi como se o sol nascesse duas vezes no mesmo dia no Acre.

Mas o milagre da medicina traz consigo o peso da realidade. O tratamento é gratuito, um direito conquistado. Mas o caminho até lá é pago. A conta das passagens, ida e volta, ultrapassa os R$ 2,4 mil. Sem contar a hospedagem, que precisa ser perto do hospital, e a alimentação para uma mãe e uma filha que vão passar dias longe de casa. É uma montanha de dinheiro para quem vive do dia a dia.

Foi aí que a comunidade entrou na história. Não como espetáculo, mas como tecido. Amigos da academia onde Kerolay trabalha começaram a pedir encomendas. Clientes antigos voltaram só para comprar. Uma vizinha levou caixas de papelão. Outras mães se ofereceram para vender nos seus locais de trabalho. O "Doce de Mãe" deixou de ser apenas um produto para virar um ato de fé coletiva.

"Eu faço cada doce pensando que ele é um tijolinho dessa ponte que estou construindo para a Maria Elis", diz Kerolay, enquanto enrola mais um bolinho com as mãos calejadas. Ela não fala com a voz de heroína, mas com a simplicidade de quem faz o que precisa ser feito. Não há reclamação, apenas o movimento constante das mãos.

Maria Elis, enquanto isso, está no berço ou no cadeirão, observando o vai-e-vem da mãe. Talvez não entenda o gosto do chocolate, mas entende a presença. Kerolay conta que quer chegar ao Rio dois dias antes, para que a filha se adapte ao clima, ao cheiro do lugar, para que o susto do novo não tire a serenidade da consulta médica.

É uma viagem de mil e um quilômetros que começa na lata de leite condensado e na chaleira no fogo. O cheiro de doce impregnou as cortinas, o cabelo de Kerolay e as paredes daquela casa. É um perfume de sacrifício, do tipo que não se vê nos noticiários, mas que sustenta o mundo. Ao fim da tarde, a caixa está pronta. Amanhã é dia de entrega. Amanhã é um dia a menos na contagem. Kerolay olha para a filha, que agora dorme, e suspira. A promessa se renova a cada brigadeiro enrolado.

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◆ Repórter · Nortícia Boa

Padre Bruno Sena

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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