Disputa de vozes: quem é o maior levantador de toadas de Parintins?
Entre a potência de Gegê e a técnica de Zé do Cavaco, o debate sobre os maiores nomes da história do Boi divide opiniões no Amazonas.
O cheiro de manteiga de garrafa e urucum parece impregnar o microfone antes mesmo da fala. Na beira do rio, a expectativa é tangível. O Bumbódromo é uma caixa de ressonância onde o batuque não é só percussão, é pele. Mas é o grito que rasga a madrugada o verdadeiro sinal de que a festa começou. O levantador de toadas não é apenas quem canta; é o mestre-de-cerimônias do sagrado e do profano no curral, a voz que faz o trem da torcida engordar até o telhado e treme a estrutura de concreto.
O debate que rola na mesa de boteco em Manaus e na lanterna da canoa em Itacoatiara é antigo, mas agora ganha palco virtual. A pergunta é simples, mas capaz de terminar amizades de décadas: quem é o dono da voz? Do lado vermelho, a memória de Gegê é inquestionável para muitos. Uma potência vocal que transformava cada nota em uma ordem de guerra, um chamado que não admitia resposta silenciosa da galera do Garantido. Quando Gegê gritava, o rio parecia mudar o curso.
Do lado azul, a técnica de Zé do Cavaco é o parâmetro de precisão. O canto afinado que dava geografia exata para o boi brilhar, a dicção perfeita que dava nome aos personagens do folclore amazônico antes mesmo de eles entrarem em cena. Não era só força bruta, era a arquitetura do som. E não para por aí: nomes como David Assayag, que marcou época com seu estilo inconfundível, ou a força atual de Tessália, que equilibrou o machado da disputa com a voz feminina no Caprichoso, entraram na roda de conversa.
Mais do que interpretar uma música, o levantador de toadas é o intérprete da emoção coletiva. Ele pega a história contada pelo contador, a melodia composta pelo puxador e joga na torcida como um desafio. "O boi bateu?", ele questiona. E a galera responde em uníssono, num coro que é a própria identidade do Amazonas vocalizada. É essa capacidade de transformar um espetáculo visual em uma experiência visceral que coloca esses artistas no pedestal da cultura regional.
Não precisa de pulseira de acesso para ter opinião sobre esse capítulo da história do Boi-Bumbá. A disputa pela melhor voz de todos os tempos está aberta e os currais já estão formando as filas para defender seus ídolos. Vote e diga qual a voz que ecoa na sua memória quando se fala de Parintins, aquela que faz o peito apertar mesmo longe da ilha.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



