Mapa revela que BR-319 corta o coração da biodiversidade amazônica
Estudo aponta que rodovia ligará arco do desmatamento a região com maior diversidade de espécies do planeta.
O pó vermelho da terra firme sobe e cobre as folhas da sorveira. No trecho onde a BR-319 ainda é promessa e cascalho, entre Manaus e Porto Velho, o silêncio da floresta é interrompido apenas pelo canto do jaçanã e pelo ranger dos galhos. É ali, nessa faixa de transição que o governo quer pavimentar a todo custo, que o senhor Raimundo Nonato, seringueiro da região do Careiro, aponta para o norte e vê o futuro chegar como uma onda de fogo que ainda não pegou, mas que já esquenta o ar.
A preocupação de Raimundo não é só medo de antigo. Um novo mapa divulgado por pesquisadores nesta semana desenha com precisão cirúrgica o motivo do aperto no peito de quem vive na beira da estrada. A análise mostra que a BR-319 não corta apenas mata, ela corta o coração da biodiversidade planetária. A região exatamente no meio do traçado da rodovia concentra, em um único quilômetro quadrado, mais espécies de plantas e animais do que qualquer outro lugar do Brasil, e talvez do mundo.
“Onde tem muita vida, vem muita cobiça”, diz Raimundo, que há trinta anos caminha por essas varadouros. Ele explica que a floresta ali não é homogênea, é um mosaico de campinaranas e terras firmes que abriga peixes que ninguém conhece fora daquele igarapé e pássaros que não existem em outro lugar. Para a ciência, essa área é um hotspot endêmico, um termo técnico para dizer que, se a floresta cair ali, aquelas espécies somem do mapa da Terra para sempre.
Os números do estudo são um grito de alerta. A pavimentação da BR-319 funcionará como uma agulha gigante que costura, em linha reta, o arco do desmatamento — que já devora o sul do Amazonas e norte de Rondônia — ao coração mais intocado da floresta central. A lógica é simples e brutal: onde chega asfalto sem lei, chega o grileiro, chega o madeireiro, chega o fogo. O mapa demonstra que o impacto não será localizado, mas uma infecção que pode se espalhar pelas margens da rodovia para dentro das Terras Indígenas e Unidades de Conservação que margeiam o asfalto.
A história dessa estrada é marcada pelo ciclo da violência. Aberta na década de 1970, durante a ditadura militar, a rodovia foi engolida pela floresta menos de duas décadas depois, vítima da má gestão e da incapacidade de manter a terra sob o asfalto. A natureza tentou cicatrizar a ferida, fechando a estrada com raízes e folhas. Agora, o plano de ressuscitá-la coloca em risco esforços de décadas de conservação, ignorando a lição que a própria floresta tentou ensinar ao enterrar a antiga pista.
O governo do estado e o Ministério dos Transportes defendem a obra como questão de soberania e desenvolvimento, prometendo fiscalização e unidades de conservação para blindar a floresta. Discursos em papéis que Raimundo e as comunidades ribeirinhas da calha do Madeira e do Purus dificilmente confiam. A experiência de quem está na terra mostra que a fiscalização chega sempre depois do dano, quando a tora já foi levada e a queimada já transformou a verde em cinza.
No entroncamento que liga o interior de Manaus ao tempo da floresta, o sol começa a se pôr. O som da serra elétrica cortando uma árvore ilegalmente a poucos metros da futura pista se mistura com o coaxar dos pererecas. É a trilha sonora de um conflito que está apenas começando. Se a asfaltar chegar, o mapa da biodiversidade pode virar um mapa de memória, e Raimonto teme ser o último de sua geração a lembrar como o vento sojava nas copas antes da estrada.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
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