Mistério de luzes em serra mobiliza moradores de Xambioá, no Tocantins
Programador buscou vestígios físicos no local após gravar vídeo, mas não encontrou provas. FAB afirma que radares não detectaram aeronaves na região.
Anderson Oliveira, 32 anos, parou o carro na margem da rodovia que corta o norte do Tocantins. O local fica nos arredores de Xambioá, uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes que vive à sombra da usina hidrelétrica de Estreito. Eram cerca de 22h do dia 28 de maio, uma quarta-feira comum, até que o olhar dele se prendeu ao cume da serra que borda o horizonte da cidade. Luzes fortes, brancas e intermitentes, piscavam em um padrão que não parecia aleatório. Anderson, programador de profissão e acostumado a resolver problemas lógicos, não encontrou uma explicação imediata no monitor do seu carro. Ele parou, pegou o celular e gravou.
O vídeo, curto e sem áudio, captou a estranha luminosidade contra o fundo escuro da vegetação típica do Cerrado. Quando ele postou nas redes sociais, o que era uma curiosidade pessoal virou o assunto do momento nos grupos de WhatsApp de Xambioá e região. Os comentários se multiplicavam. Uns viam drone de alta tecnologia, outros apostavam em sinalizadores de garimpeiros clandestinos, e uma parte considerável, influenciada pela internet, apontava para a possibilidade de óvnis. A coincidência com um caso recente no Paraná, onde luzes similares foram filmadas, jogou lenha na fogueira da especulação. Em uma cidade onde o noticiário costuma ser tranquilo, o mistério ganhou manchetes locais rapidamente.
A repercussão foi tanta que Anderson sentiu que deveria ir além da gravação. Ele não queria ser apenas o homem que filmou uma luz; ele queria saber o que estava lá. Três dias depois, o programador voltou à base da serra. A subida não é fácil; o terreno é acidentado, coberto por mata fechada e pedras que caracterizam a geologia da região. Ele passou horas vasculhando o local estimado onde as luzes teriam origem. A busca, porém, rendeu mais cansaço do que respostas. "Não consegui avistar nada relevante que comprovasse algo, porém eu fiquei em dúvida sobre o local exato", contou ele à reportagem. O silêncio da floresta guardava o segredo, sem deixar rastros físicos de pouso ou equipamentos.
Enquanto Anderson caminhava pela mata, uma outra resposta estava sendo construída nos sistemas militares. A Força Aérea Brasileira (FAB), responsável pela vigilância do espaço aéreo brasileiro, foi acionada para esclarecer o episódio. O Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) cruzou as informações das coordenadas de Xambioá com os dados operacionais do Quarto Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (CINDACTA IV). Esse é o órgão que monitora tudo o que voa sobre a região Norte, incluindo o Tocantins. A conclusão técnica foi clara: os radares primários e secundários, que são capazes de detectar desde um pequeno avião monomotor até um jato comercial, não registraram a presença de nenhum objeto não autorizado na área naquela noite. Além disso, não houve relatos de pilotos em voo que cruzassem a região.
A ausência de confirmação técnica, no entanto, não apaga o testemunho visual. Em Xambioá, a conversa nas portas das casas e no comércio central ainda gira em torno daquela noite. Maria das Graças, comerciante no centro da cidade e que viu o vídeo, diz que a imaginação voa longe quando o assunto é o desconhecido. "A gente olha para cima e vê só estrela. Ver luz piscando não é comum não", diz ela. Outros moradores, mais céticos, lembram que a região tem muita mineração e atividade agrícola, o que poderia justificar o uso de luzes fortes para trabalho noturno, embora a FAB não tenha detectado aeronaves que transportariam equipamentos desse porte para o topo da serra.
O caso segue classificado como um fenômeno não identificado visualmente, mas sem registro técnico. Para a aviação civil e militar, o espaço aéreo de Xambioá permanece limpo e seguro. Para os moradores, resta a história da noite em que o céu da serra piscou de volta para eles. A experiência serviu pelo menos para puxar o assunto da rotina e unir a cidade em torno de um mistério compartilhado.
Casos futuros como esse podem ser relatados diretamente à FAB. A Força possui um canal específico para o registro de objetos voadores não identificados (OVNIs), o Comitê de Estudos de Objetos Voadores Não Identificados (Covni), que recebe relatos por e-mail oficial em covni@fab.mil.br. A orientação é sempre anotar o máximo de detalhes possíveis: hora, local, duração, cor, forma e direção do deslocamento. Em Xambioá, a serra voltou ao silêncio, mas Anderson continua com o vídeo salvo no celular, uma prova digital daquela noite inusitada no norte tocantinense.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.


