Após deixar relação abusiva, mulher retoma vida com viveiro e segurança no Acre
Alcenira Almeida trocou a rua pela jardinagem e pela segurança de eventos em Rio Branco.
Alcenira de Almeida Silva, 47 anos, amassa a terra entre as mãos cedo, ainda sob o sol fresco de Rio Branco. Na banca que monta nas feiras da capital, cada muda de jambu e cada vaso de alecrim representam uma etapa da reconstrução. Há seis anos, o chão que ela pisava não era de jardim, mas o asfalto frio das ruas onde foi parar depois de decidir encerrar um relacionamento abusivo de dezessete anos.
O dia de Alcenira é dividido entre a terra e o uniforme. De sol a pino, ela cuida de jardins, planta e organiza o viveiro que improvisou onde consegue espaço cedido. À noite, a paisagem muda: ela veste a camisa de segurança e trabalha em eventos e feiras noturnas. É na vigilância que ela garante o sustento que começou a se desenhar quando saiu da situação de rua, vinculada a programas de assistência social e ao trabalho informal.
"De dia eu cuido da vida das plantas, de noite eu cuido da vida das pessoas", define Alcenira, que mora atualmente em um conjunto habitacional na zona urbana da cidade. A renda que vem da jardinagem nem sempre é suficiente. Para fechar as contas, ela investe no crochê. As peças de artesanato, feitas com agulhas e linhas coloridas, dividem espaço com as mudas na exposição semanal.
A força da empreendedora rendeu mais que o dinheiro no bolso. Alcenira ajudou a fundar uma associação voltada para o fortalecimento de pequenos negócios na região. O grupo reúne outras mulheres que, assim como ela, buscaram no trabalho coletivo uma saída para a dependência financeira que, muitas vezes, é o principal empecilho para deixar um ciclo de violência doméstica. Na associação, elas trocam experiências sobre venda, gestão e dividem os custos dos materiais.
O caminho não foi curto. Depois de deixar a casa em que vivia com o ex-companheiro, ela passou por abrigos e依赖 da solidariedade de amigos até conseguir o primeiro terreno para plantar. A jardinagem, que hoje é o ofício principal, surgiu como terapia. "Cuidar de uma planta é ver a vida renascer todo dia. Isso me fez lembrar que eu também podia recomeçar", conta.
Quem passa pela feira e vê a banca colorida de Alcenira nem imagina a trajetória que existe por trás daquelas mudas. O trabalho silencioso de mulheres como ela compõe o cotidiano de uma capital que ainda enfrenta índices alarmantes de violência doméstica. A saída pela autonomia econômica, via artesanato e comércio informal, tem se tornado um dos principais pilares de ressocialização para muitas vítimas no estado.
Os produtos de Alcenira — mudas, plantas e artesanato em crochê — podem ser encontrados nas feiras de artesanato do centro de Rio Branco nos finais de semana. Informações sobre a associação de pequenos negócios que ela integra podem ser obtidas junto ao CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) mais próximo da região do 2º Distrito, onde o grupo costuma realizar reuniões abertas a novas empreendedoras.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



